A BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, identificou uma mudança no comportamento de seus clientes institucionais em relação aos investimentos sustentáveis, segundo declarações publicadas em 24 de março de 2026 pelo Responsible Investor. De acordo com Sandra Boss, presidente da empresa no Reino Unido, os investidores passaram a buscar uma “construção de produtos mais sutil”, em vez de estratégias baseadas puramente na exclusão de setores específicos.
Para o mercado brasileiro, a discussão é relevante porque a agenda ESG também influencia a oferta de fundos e produtos de investimento no país, além de afetar decisões de alocação de gestores com atuação global. Mudanças desse tipo em grandes casas internacionais costumam ser acompanhadas de perto por bancos, gestoras e investidores institucionais no Brasil.
Segundo o Responsible Investor, essa evolução reflete uma maturidade do mercado internacional, em que a simples remoção de empresas de combustíveis fósseis ou de outros setores controversos de um portfólio já não atende plenamente às necessidades de gestão de risco e retorno no longo prazo. Os clientes passam a priorizar abordagens que consideram a transição energética de forma mais ampla e integrada à realidade econômica global.
Por que as estratégias de exclusão estão perdendo espaço?
Historicamente, o investimento responsável começou com o chamado “filtro negativo”, em que empresas consideradas prejudiciais eram simplesmente banidas das carteiras. No entanto, Sandra Boss afirmou que essa visão binária vem sendo substituída por uma análise mais profunda. A construção de produtos mais sofisticados permite que gestores identifiquem quais empresas, mesmo em setores tradicionais, têm planos de transição sólidos e resilientes.
Esse movimento é impulsionado pela necessidade de equilibrar metas de sustentabilidade com a responsabilidade fiduciária de gerar retornos consistentes aos investidores. Ao adotar uma postura mais sutil, a BlackRock busca oferecer soluções que capturem oportunidades associadas à descarbonização da economia, sem abrir mão da diversificação das carteiras.
Quais os desafios das definições europeias de transição?
Um dos pontos levantados pela executiva se refere às definições de “transição” estabelecidas pela União Europeia. Embora o bloco seja referência em regulamentações ambientais e divulgação de informações de sustentabilidade, essas definições podem não ser totalmente adequadas para investidores que operam em escala global. Sandra Boss destacou que métricas rígidas adotadas na Europa nem sempre traduzem as realidades de outros mercados, como o norte-americano ou o asiático.
Essa discrepância regulatória cria desafios para grandes gestoras que precisam harmonizar produtos para uma base de clientes diversificada. A busca por produtos customizados reflete o desejo de alinhar portfólios a diretrizes globais de investimento, em vez de se restringir apenas a critérios técnicos estabelecidos por autoridades europeias.
Como o mercado deve se adaptar a essa nova demanda?
A tendência apontada pela liderança da BlackRock indica um cenário em que a integração de fatores ESG (ambientais, sociais e de governança) se torna mais técnica. O foco do setor de gestão de ativos recai sobre a materialidade financeira, isto é, sobre como riscos climáticos e mudanças sociais impactam diretamente o valor das empresas ao longo do tempo.
- Desenvolvimento de métricas de transição mais precisas e adaptadas a cada setor industrial;
- Maior transparência nos dados fornecidos pelas empresas investidas sobre suas operações;
- Alinhamento de portfólios com cenários de emissões líquidas zero em diferentes prazos;
- Customização de estratégias de acordo com a jurisdição e os objetivos específicos do investidor.
Em resumo, o mercado financeiro vem deixando para trás a fase das métricas mais simples de sustentabilidade para adotar abordagens mais complexas na transição econômica global. Para a BlackRock, atender a essa demanda por produtos mais elaborados e menos genéricos é essencial para manter relevância em um cenário em que a sustentabilidade se tornou um componente central da estratégia de investimento.


