A mineradora canadense Belo Sun avança em seu projeto para construir a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil na Volta Grande do Xingu, no estado do Pará. Após ter o licenciamento alvo de disputas e suspensões na Justiça desde 2017, movimentações judiciais recentes reacenderam o alerta sobre o caso. A liberação documental abre caminho para uma estrutura que prevê uma barragem de rejeitos três vezes maior que a que se rompeu em Brumadinho (MG) em 2019, ameaçando comunidades indígenas e ribeirinhas locais.
De acordo com informações da Sumaúma, a iniciativa depende agora de um novo aval da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) do Pará. Caso o megaprojeto de extração seja aprovado, o uso de explosivos ocorrerá em uma das áreas com maior biodiversidade da Floresta Amazônica, afetando diretamente povos como os Xikrin, Juruna, Xipai, Arara, Kuruaya e Parakanã.
O que é o projeto da mineradora Belo Sun?
O Projeto Volta Grande, conduzido pela multinacional estrangeira, planeja faturar mais de R$ 80 bilhões ao longo de 18 anos de exploração. A infraestrutura inclui duas cavas gigantes, pilhas de minérios, uma usina industrial de processamento e uma barragem de rejeitos. A empresa estima que pode erguer toda essa estrutura no município de Senador José Porfírio, no sudoeste paraense próximo a Altamira, em um prazo de apenas dois anos após a obtenção da licença de instalação definitiva.
O volume de intervenção no solo amazônico é massivo. A companhia canadense projeta remover 620 milhões de toneladas de terra da região. Estudos independentes indicam que a barragem abrigará 35 milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos, compostos por resíduos do beneficiamento, água do processo e cianeto residual — um produto químico altamente perigoso para a vida aquática, utilizado para dissolver o ouro retirado das rochas.
Quais são os impactos para o Rio Xingu e as comunidades locais?
A construção da mina adicionaria uma nova e pesada camada de pressão sobre um território que já lida com os graves impactos causados pela Usina Hidrelétrica Belo Monte, a maior hidrelétrica 100% brasileira. A usina desviou o curso das águas, retendo cerca de 80% do volume para suas turbinas, o que gerou uma seca permanente que alterou radicalmente a vida das comunidades ribeirinhas e indígenas, resultando na submersão de áreas florestais e na mortalidade em massa de peixes nativos, como o pacu-seringa.
Com o avanço do projeto minerário, comunidades inteiras precisariam ser realocadas novamente. Muitas dessas famílias já haviam sido deslocadas de suas casas para dar lugar às obras da hidrelétrica. Aqueles que permanecerem na região terão que conviver com detonações diárias de explosivos e o risco iminente de contaminação hídrica, além do medo constante de rompimentos similares aos desastres que devastaram Mariana (2015) e Brumadinho (2019), em Minas Gerais.
Como os povos indígenas estão reagindo ao megaprojeto?
A reação à possibilidade de retomada do licenciamento tem sido imediata e contundente. Povos indígenas que habitam a Volta Grande do Xingu iniciaram uma série de mobilizações para barrar a instalação da usina. Entre as principais ações promovidas pelas lideranças locais, destacam-se os seguintes atos:
- Ocupação da sede regional da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em Altamira, órgão federal responsável pela política indigenista, ação que já dura mais de um mês;
- Fechamento temporário das vias de acesso e do aeroporto local;
- Exigência de uma reunião emergencial com representantes da Semas para discutir o licenciamento.
O governo estadual do Pará, atualmente sob a gestão de Helder Barbalho (MDB), atua por meio da secretaria ambiental como a última barreira institucional capaz de impedir ou autorizar o início das obras. Enquanto a empresa já comunica a seus investidores os próximos passos do empreendimento bilionário, defensores do meio ambiente alertam que ainda não foi comprovada a viabilidade técnica e a segurança de se utilizar explosivos em larga escala nas proximidades da estrutura de uma das maiores hidrelétricas do mundo.

