O Banco Master destinou mais de meio bilhão de reais ao pagamento de serviços advocatícios e honorários profissionais ao longo de quatro anos. Entre os anos de 2022 e 2025, a instituição financeira pagou exatos R$ 543 milhões a 91 escritórios de advocacia distintos. Os dados, provenientes da Receita Federal, foram encaminhados à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, no Senado Federal, e revelam um salto vertiginoso nos gastos jurídicos da empresa justamente no período em que o seu controlador, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, passou a ser alvo de investigações da Polícia Federal.
De acordo com informações do UOL e apuração replicada pelo Brasil 247, os documentos fiscais detalham os beneficiários dessas transferências milionárias. Do total de bancas contratadas no período analisado, 15 escritórios de advocacia receberam valores que ultrapassam a marca de R$ 10 milhões cada, englobando grandes e tradicionais estruturas jurídicas do país, bem como profissionais com amplo trânsito nas esferas de poder em Brasília.
Como os pagamentos escalaram ao longo dos anos?
A análise dos registros da Receita Federal mostra que os desembolsos do Banco Master com defesa jurídica e consultoria não foram lineares. Pelo contrário, os gastos cresceram de maneira contínua e exponencial à medida que a pressão das autoridades se intensificava sobre a instituição e seus principais executivos.
A evolução anual dos pagamentos ocorreu da seguinte forma:
- 2022: Os gastos com escritórios de advocacia somaram cerca de R$ 40,1 milhões.
- 2023: Houve um aumento moderado nas despesas, com os repasses subindo para R$ 56,8 milhões.
- 2024: Ocorreu o primeiro grande salto nos custos jurídicos. Os valores atingiram R$ 183,7 milhões, coincidindo exatamente com o ano em que a Polícia Federal iniciou apurações criminais contra o controlador do banco, Daniel Vorcaro.
- 2025: O recorde histórico de despesas. Com o avanço do cerco das autoridades e o início simultâneo das negociações institucionais com o Banco de Brasília (BRB), o Master declarou R$ 262,4 milhões em pagamentos a advogados.
Quais figuras políticas e autoridades aparecem na lista?
Além de grandes escritórios corporativos voltados ao direito empresarial e penal, a relação de beneficiários enviada à CPI do Crime Organizado inclui repasses a firmas ligadas a figuras proeminentes do cenário político nacional. Segundo a documentação contábil, há registros de honorários pagos a ex-ministros de Estado, lideranças partidárias e advogados com laços familiares com integrantes da cúpula do Judiciário brasileiro.
Entre os nomes citados nos arquivos obtidos pela imprensa nacional estão o ex-presidente da República Michel Temer e o atual presidente nacional do partido União Brasil, Antônio Rueda. A lista também engloba firmas de ex-ministros de gestões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e atual ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski.
Um dos dados de maior evidência nos documentos fiscais refere-se ao beneficiário individual de maior monta dessas contratações. O escritório de advocacia que recebeu o maior volume de recursos financeiros do Banco Master em todo o período analisado foi a banca Barci de Moraes. A firma pertence a Viviane Barci de Moraes, que é esposa do ministro Alexandre de Moraes, integrante do Supremo Tribunal Federal e ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral.
Qual é o contexto das investigações no Senado?
A revelação destes dados financeiros ocorre no escopo de atuação da CPI do Crime Organizado, comissão instalada no Senado Federal para investigar irregularidades sistêmicas, esquemas de lavagem de dinheiro e eventuais conexões criminosas entranhadas no sistema financeiro nacional. Neste cenário, a Receita Federal atua como órgão de apoio técnico, realizando o fornecimento de dados fiscais sigilosos mediante quebra aprovada pelos parlamentares da comissão.
A escalada superior a quinhentos por cento nos custos advocatícios entre os anos de 2022 e 2025 ilustra o esforço de defesa contenciosa do Banco Master diante do escrutínio público e policial. O período financeiramente mais oneroso coincidiu com duas frentes consideradas cruciais para o futuro do banco: a tentativa de evitar desdobramentos penais da operação da Polícia Federal e a necessidade de viabilizar as complexas negociações comerciais envolvendo um banco público distrital.
Por que a Receita Federal monitora estes repasses?
A identificação e a consolidação destes valores bilionários só foram possíveis graças aos mecanismos padronizados de controle fiscal do Estado. A Receita Federal obriga todas as instituições financeiras que operam no Brasil a declararem as suas despesas operacionais e contratações de serviços de terceiros de forma minuciosa. Quando uma Comissão Parlamentar de Inquérito solicita o compartilhamento dessas informações por vias legais, os dados fiscais são cruzados para mapear o fluxo do dinheiro e identificar possíveis atipicidades ou tentativas de blindagem que extrapolem os padrões do mercado financeiro.
O fato de um banco desembolsar mais de meio bilhão de reais exclusivamente para bancas de advocacia em um intervalo tão curto chama a atenção imediata dos investigadores parlamentares. No ambiente corporativo bancário, despesas com consultoria jurídica são absolutamente comuns e necessárias. Porém, o crescimento repentino associado diretamente a um calendário de operações policiais levanta questionamentos técnicos sobre a natureza dos serviços prestados aos executivos.
O que as negociações com o BRB representam no cenário do banco?
As tratativas de negócios entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB), concentradas sobretudo ao longo do ano de 2025, representaram o ápice dos gastos com as firmas de advocacia. Operações complexas de fusão, aquisição, parcerias estratégicas em crédito consignado ou negociações envolvendo instituições de controle público exigem a formulação de contratos extensos, auditorias rigorosas e pareceres jurídicos emitidos por escritórios de amplo renome para garantir a segurança institucional da transação.
Contudo, a concomitância dessas negociações corporativas vitais com o aprofundamento das investigações da Polícia Federal formou um cenário de tempestade perfeita, exigindo aportes financeiros sem precedentes por parte da administração da empresa. Caberá agora aos parlamentares da CPI e às autoridades judiciárias competentes aprofundarem a análise do escopo desses contratos advocatícios para determinar a sua estrita legalidade.