
Especialistas apontaram, em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal, que a gestão fraudulenta do Banco Master impõe barreiras à atuação de auditores independentes. O debate, realizado nesta terça-feira (17 de março de 2026), faz parte do acompanhamento das investigações sobre as fraudes envolvendo a instituição financeira.
De acordo com informações da Agência Senado, o presidente da CAE, senador Renan Calheiros (MDB-AL), destacou a importância dos relatórios de auditoria para proteger investidores.
As auditorias independentes existem justamente para reduzir a desigualdade de informação entre as partes. Em mercados complexos, a confiança nesse meio se baseia muito na transparência e na precisão dos dados.
A Polícia Federal (PF) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda responsável por regular o mercado de capitais no Brasil, investigam um possível esquema de manipulação do mercado financeiro com a participação de gestores do Banco Master.
Como a supervalorização de ativos impacta a solidez bancária?
O senador Esperidião Amin (PP-SC) questionou sobre medidas legislativas para identificar “ativos podres” que, supostamente, inflaram o valor do Banco Master. Ele citou o caso do antigo Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), incorporado pelo Banco do Brasil em 2008, onde ativos foram supervalorizados.
Essas cártulas foram avaliadas por R$ 850 milhões e depois contabilizadas no patrimônio por R$ 6 bilhões, e fica por isso? A auditoria tem que chegar ao mérito da questão: o fundamento do valor atribuído ao bem. Ou acabar com a “Casa da Moeda”.
Fabio Pinto Coelho, representante da CVM, defendeu a criação de um regime jurídico específico para a precificação de ativos financeiros de difícil mensuração, com responsáveis pela avaliação que possuam conhecimento do mercado e responsabilidades definidas.
Auditores possuem a expertise necessária para avaliar ativos financeiros?
O senador Jorge Kajuru (PSB-GO) indagou sobre o conhecimento técnico dos auditores independentes para identificar os valores reais dos ativos financeiros. Joaquim de Alencar Bezerra Filho, presidente do Conselho Federal de Contabilidade, garantiu que os auditores possuem a capacitação necessária, com formação mínima de 40 horas e certificação do Conselho.
Rogerio Lopes Mota, diretor técnico do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil, explicou que os auditores têm acesso limitado a informações aprovadas pela diretoria, o que dificulta a identificação de fraudes.
Quais as limitações enfrentadas pelas auditorias independentes?
De acordo com Mota, a dificuldade aumenta quando a fraude envolve entidades externas à empresa, como fundos de investimento, situação que aparenta ser o caso do Banco Master. Bezerra Filho complementou que erros de auditoria são raros e resultam de falhas em outros departamentos de fiscalização e nas práticas da empresa.
[A auditoria] é um instrumento poderoso de governança, mas não substitui a responsabilidade da administração. A auditoria não fornece certeza absoluta, oferece segurança razoável, porque trabalha com teses e amostragens.
Bezerra Filho defendeu o acesso dos auditores independentes ao Registrato do Banco Central, sistema que permite consultar informações financeiras amplas sobre a empresa.
Qual o papel do Projeto de Lei 2.581/2023 no combate a crimes financeiros?
Bezerra e Mota manifestaram apoio ao Projeto de Lei (PL) 2.581/2023, que oferece recompensa a denunciantes de crimes no mercado financeiro, visando fortalecer a credibilidade do setor. O texto, de autoria do senador Sergio Moro (União-PR), foi aprovado no Senado em 2024 e está em análise na Câmara dos Deputados.
Antoninho Marmo Trevisan, fundador da Trevisan Escola de Negócios, esclareceu que o auditor não é um “policial nem fiscalizador”, mas sim um profissional que atesta a conformidade da instituição com normas e boas práticas. O relatório da auditoria deve ser encaminhado aos supervisores da empresa e aos órgãos reguladores.


