Bally Bagayoko, de 52 anos, novo prefeito de Saint-Denis, na região ao norte de Paris, tornou-se alvo de ataques racistas após sua eleição em primeiro turno para comandar uma das maiores cidades da região parisiense. Filho de pais malineses e integrante do partido de esquerda radical França Insubmissa, ele apresentou queixa contra o canal CNews e convocou uma mobilização antirracista para sábado, 4 de abril de 2026, às 14h, na escadaria da prefeitura. De acordo com informações do g1 Mundo, o caso provocou reações de parlamentares, entidades antirracistas e integrantes do governo francês.
O episódio ocorre em um momento em que o debate sobre racismo, imigração e discurso público segue forte na Europa e tem repercussão internacional, inclusive no Brasil, onde temas como discriminação racial e o papel dos meios de comunicação também mobilizam discussões públicas e judiciais. Bagayoko cresceu em Saint-Denis, cidade de cerca de 150 mil habitantes e com grande população imigrante, situada no departamento de Seine-Saint-Denis, na região metropolitana de Paris.
Desde que assumiu o cargo há poucas semanas, segundo a reportagem, ele vem sendo alvo de ataques racistas e da circulação de informações falsas. O prefeito também passou a enfrentar controvérsia política após defender o desarmamento progressivo da polícia municipal como uma de suas propostas de governo.
O que motivou a denúncia contra a CNews?
A queixa apresentada por Bagayoko foi motivada por declarações exibidas pela CNews durante um debate sobre sua gestão. De acordo com o texto original, o apresentador perguntou a um psicólogo convidado se o prefeito estaria “tentando ultrapassar os limites”. Na resposta, o comentarista associou a discussão sobre liderança a referências a “grandes macacos” e a “tribos”, o que gerou forte reação pública.
“Há certamente alguma verdade nisso. Agora, é importante lembrar que o Homo sapiens é um mamífero social e pertence à família dos grandes macacos. Consequentemente, em toda comunidade, em toda tribo – nossos ancestrais caçadores-coletores viviam em tribos…”
Após a exibição, a líder do grupo parlamentar França Insubmissa, Mathilde Panot, classificou o episódio como “racismo descarado e sem vergonha”. Um senador comunista chamou o canal de “antro de racismo”, enquanto um deputado do Partido Verde o definiu como “notícias lixo”. O chefe da organização SOS Racismo também condenou o caso e disse se tratar de um “ataque com evidentes conotações racistas”.
Como a emissora e os órgãos públicos reagiram ao caso?
Em comunicado divulgado na segunda-feira, 30 de março de 2026, a CNews afirmou que “nega formalmente que quaisquer comentários racistas tenham sido feitos” em sua programação. A emissora disse ainda que houve uso de trechos “truncados e retirados de seu contexto”, o que, segundo o canal, contribuiria para uma instrumentalização polêmica do conteúdo exibido.
O MRAP, sigla do Movimento Contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos, informou que também apresentaria uma queixa contra a CNews. A entidade alertou para o que chamou de “preocupante normalização de um discurso que reativa padrões racistas profundamente enraizados”. Já a Arcom, órgão regulador do audiovisual na França, informou que investigaria as denúncias apresentadas por MRAP e SOS Racismo.
- Bagayoko foi eleito em primeiro turno para a prefeitura de Saint-Denis.
- O prefeito anunciou mobilização antirracista para sábado, 4 de abril de 2026, às 14h.
- A CNews nega que tenha havido comentários racistas em sua programação.
- A Arcom informou que investigará as denúncias recebidas.
Quem é Bally Bagayoko e quais outras controvérsias cercam sua gestão?
Bagayoko é filho de imigrantes do Mali e cresceu na própria Saint-Denis, descrita na reportagem como a cidade mais populosa da Île-de-France depois de Paris. Sua eleição tem peso simbólico em um município marcado por forte presença de moradores de origem imigrante. Ao mesmo tempo, sua proposta de desarmamento progressivo da polícia municipal passou a alimentar críticas e acusações de que ele tentaria afastar funcionários da administração que não estariam alinhados com suas políticas.
Uma segunda controvérsia foi registrada no sábado, 28 de março de 2026, quando o ensaísta Michel Onfray acusou Bagayoko de comportamento “machista” por ter pedido “lealdade” após sua eleição. O episódio ampliou a pressão política sobre o prefeito em meio ao debate já instalado em torno das declarações exibidas na televisão.
Que apoio Bagayoko recebeu do governo francês?
Na segunda-feira, 30 de março de 2026, Bally Bagayoko recebeu apoio público do governo francês. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, declarou à rádio RTL que considera os ataques “desprezíveis” e afirmou que esse tipo de manifestação é inadmissível. Já a ministra da Cultura, Catherine Pégard, classificou as falas como “ataques vis e inaceitáveis”.
O caso colocou Saint-Denis no centro de uma discussão mais ampla sobre racismo, xenofobia e discurso público na França. A mobilização convocada pelo prefeito busca reunir cidadãos contra o racismo, a discriminação e o ódio, enquanto a apuração administrativa e judicial sobre o episódio segue em andamento.


