Em oito de julho de 2023, uma equipe multidisciplinar de cientistas e técnicos registrou o raro nascimento de uma baleia-cachalote em seu habitat natural, nas águas do Mar do Caribe, próximo à costa da Comunidade da Dominica. A espécie (Physeter macrocephalus), que também possui ampla ocorrência ao longo de toda a costa brasileira, teve o evento extraordinário documentado minuciosamente por meio de drones de alta resolução e equipamentos acústicos avançados. Isso revelou dinâmicas sociais e métodos de comunicação que permaneciam desconhecidos pela comunidade científica internacional.
De acordo com informações da CNN Brasil, o registro histórico foi viabilizado por pesquisadores a bordo de embarcações do Projeto CETI (Iniciativa de Tradução de Cetáceos). Esta organização sem fins lucrativos é integralmente dedicada ao estudo complexo da comunicação entre as baleias e acompanhava o comportamento destes animais marinhos na região de forma sistêmica.
Como os biólogos identificaram o trabalho de parto no oceano?
Durante uma expedição rotineira de observação de um grupo predominantemente formado por fêmeas, classificado pelos estudiosos como Unidade A, o biólogo marinho Shane Gero percebeu anomalias na movimentação. Diferente do padrão habitual, em que os animais se espalham por grandes distâncias para buscar alimento em águas profundas, as baleias estavam agrupadas de maneira estática e muito próximas à superfície do oceano.
O surgimento de uma extensa mancha de sangue na água gerou apreensão inicial sobre um possível ataque de predadores. Contudo, a situação foi rapidamente esclarecida quando a pequena cabeça e as nadadeiras caudais flexíveis de um filhote despontaram nas ondas. A fêmea em trabalho de parto, conhecida pelos pesquisadores como “Rounder”, tem pelo menos 19 anos de idade e já havia dado à luz a outro filhote chamado “Accra” no ano de 2017.
A princípio, pensei que algo ruim estava prestes a acontecer, até vermos a pequena cabeça aparecer e depois as nadadeiras caudais flexíveis. E então soubemos que, na verdade, era um momento de alegria.
Os pesquisadores do Projeto CETI conseguiram acompanhar e documentar o progresso exato do parto. O início do trabalho foi formalmente registrado às 11h12 da manhã, no horário local, e o processo foi inteiramente concluído às 11h45. O sucesso da captação ocorreu graças ao protocolo rigoroso da equipe, que mantinha drones no ar e gravadores em funcionamento ininterrupto.
Qual foi a reação das outras baleias durante o nascimento?
A dinâmica social observada logo após o parto impressionou os especialistas em biologia marinha. O grupo familiar, composto por oito baleias adultas e três filhotes, tornou-se repentinamente hiperativo. As fêmeas cercaram imediatamente a mãe e passaram a interagir fisicamente com o recém-nascido, acariciando e rolando o pequeno animal entre seus próprios corpos volumosos.
Em uma notável demonstração de cooperação coletiva, os membros do grupo passaram a se revezar em um esforço para erguer o recém-nascido até a superfície, garantindo que o filhote pudesse respirar enquanto o cordão umbilical ainda estava preso ao corpo da mãe. Uma jovem baleia batizada de “Ariel”, que não possuía parentesco direto com a fêmea parturiente, dedicou extrema atenção ao filhote, evidenciando que indivíduos sem laços consanguíneos também assumem responsabilidades ativas no cuidado com os recém-nascidos.
O comportamento solidário também serviu como reflexão para o líder da equipe de campo. Gero pontuou que o sucesso prático de uma sociedade cooperativa depende estritamente do trabalho em equipe, destacando que essa é uma lição valiosa que os seres humanos podem aprender com uma espécie fundamentalmente diferente, porém altamente sociável.
O que as gravações sonoras revelaram sobre a comunicação da espécie?
O espectro acústico da pesquisa gerou um volume de dados considerado sem precedentes na história da biologia moderna. Durante o período de pouco mais de quatro horas, os microfones subaquáticos captaram a impressionante marca de 31.364 cliques de comunicação trocados entre as baleias. As vocalizações sonoras, cientificamente conhecidas como codas, apresentaram padrões distintos, com agrupamentos visivelmente mais longos durante o trabalho de parto e agrupamentos mais curtos assim que o filhote nasceu de fato.
Os resultados primordiais dessas extensas observações resultaram na publicação de dois artigos acadêmicos rigorosos no mês de março, que detalharam as descobertas através dos seguintes veículos especializados:
- Um estudo analítico na prestigiada revista Science, que focou diretamente na aplicação de tecnologias de aprendizado de máquina para conseguir interpretar com precisão as identidades e as posições exatas dos animais captadas pelas lentes aéreas dos drones.
- Um relato cronológico profundo na publicação Scientific Reports, que descreveu o evento minuto a minuto e confirmou que a presença de codas sobrepostas estava diretamente ligada à formação dos laços sociais imediatos do novo integrante do grupo.
De acordo com David Gruber, fundador principal do projeto, e Mauricio Cantor, biólogo brasileiro e ecologista comportamental da Universidade Estadual do Oregon, presenciar nascimentos de cetáceos selvagens é um evento de extrema raridade, englobando apenas cerca de dez por cento do total de espécies existentes no planeta. O último registro minimamente detalhado na literatura científica a respeito do nascimento de um cachalote datava do longínquo ano de 1986, e possuía somente parcas observações escritas à mão após a conclusão do parto.