O neuropediatra José Salomão Schwartzman, amplamente reconhecido como uma das principais referências nacionais no estudo e tratamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e de diversos outros distúrbios do desenvolvimento neurológico, foi o convidado central do Roda Viva, tradicional programa de entrevistas da TV Cultura, nesta segunda-feira (6 de abril de 2026). Durante a transmissão televisiva, o especialista abordou os avanços médicos no que tange ao diagnóstico precoce no Brasil, mas também levantou questionamentos críticos a respeito das atuais definições aplicadas ao espectro autista.
De acordo com informações do portal UOL Notícias, o médico debateu a extrema importância da inclusão social e estrutural nas instituições, bem como a necessidade de suporte especializado. Contudo, ele fez ressalvas substanciais sobre o desbalanço e a forma como a expansão dos diagnósticos vem sendo conduzida nos últimos anos pela comunidade médica e pela sociedade.
Como o especialista avalia a atual classificação do espectro autista?
Schwartzman apontou que existe um desequilíbrio significativo no volume de pessoas diagnosticadas recentemente. Em sua argumentação, o entendimento clínico da condição foi alargado até um ponto considerado por ele insustentável. O médico explicou que a classificação passou a ser categorizada em níveis de suporte — critério adotado globalmente pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) —, englobando uma vasta gama de manifestações e características comportamentais que acabam se sobrepondo.
Ao comentar sobre a criação de novos termos clínicos e a diluição dos critérios originais de avaliação, o neuropediatra foi enfático em sua crítica aos padrões contemporâneos:
O espectro foi crescendo, foi aumentando. Então, você passou a ter o nível 3 de suporte, o nível 2, o nível 1, e você passou a ter pessoas que têm várias manifestações de autismo e não são autistas, que preenchem todos os critérios. E aí você inventa um nome, que é o fenótipo autista, e você tem o mais próximo do normal, só que para você não é tão normal. Eu vou ampliando o espectro e constituindo um frankenstein. É impossível que seja a mesma coisa.
Quais são as consequências da ampliação diagnóstica do autismo?
A preocupação central levantada pelo profissional baseia-se na premissa de que o alargamento ininterrupto das métricas avaliativas acaba por englobar indivíduos que não teriam de fato o transtorno. Ao adotar nomenclaturas alternativas para categorizar ações ou traços que se aproximam do desenvolvimento neurotípico, a especificidade do diagnóstico se perde.
Um monte deles não são autistas. Se eu estender um pouquinho do que eu entendo sobre espectro, cabe muita gente.
Essa perspectiva sugere que as mudanças na abordagem médica podem estar superlotando os sistemas de atendimento com demandas leves, enquanto a natureza original da condição clínica sofre uma descaracterização técnica perante a comunidade acadêmica.
Quem participou da bancada de especialistas no programa?
A tradicional sabatina do programa televisivo foi conduzida por uma extensa e diversificada bancada de especialistas, jornalistas, divulgadores científicos e ativistas com vivência na área. O grupo responsável por questionar o médico foi composto por:
- Fernanda Brandalise: roteirista e dramaturga;
- Francisco Paiva Jr.: editor-chefe da Revista Autismo;
- Gabriel Alves: diretor de redação da Revista Pesquisa Fapesp;
- Luciana Viegas: autista e fundadora do Instituto Vidas Negras com Deficiência Importam;
- Silvia Ruiz: jornalista e mãe atípica;
- Willian Chimura: doutorando em psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e divulgador científico.
Adicionalmente, a edição contou com as clássicas ilustrações elaboradas em tempo real pelas mãos do cartunista Eduardo Baptistão, que registra os momentos mais marcantes da entrevista.
Como acompanhar as discussões promovidas pela emissora?
O tradicional programa de entrevistas vai ao ar ao vivo, sempre a partir das 22h. Os espectadores interessados nas temáticas podem acompanhar o conteúdo pelo sinal aberto da TV Cultura, além de terem a opção de acessar a transmissão simultânea disponibilizada pelo canal oficial do YouTube e pelo site da emissora.


