Crianças com atrofia muscular espinhal (AME) tipo 1 podem estar apresentando uma frequência maior de transtorno do espectro do autismo (TEA) em comparação à população geral, de acordo com um estudo recente. A pesquisa, publicada recentemente pela revista científica Developmental Medicine and Child Neurology, foi realizada por uma equipe do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe, sediado em Curitiba (PR) e referência nacional em saúde infantil, e outras instituições. Esse estudo é parte do mestrado em neuropediatria de Lorena Rezende, orientado pela neurocientista Mara Cordeiro.
No estudo, que incluiu 13 crianças de dois a sete anos com AME tipo 1, cinco foram diagnosticadas dentro do espectro autista, uma proporção de cerca de 38%, significativamente maior do que os 1% a 2% observados na população geral. Segundo Mara Cordeiro, ainda não é possível afirmar uma relação causal direta entre AME e TEA, mas a vulnerabilidade no desenvolvimento neuropsicológico pode ser influenciada por fatores biológicos e limitações motoras das crianças.
Quais são os desafios no diagnóstico de TEA em crianças com AME?
A pesquisa indica que o diagnóstico de TEA em crianças com AME pode ser desafiador. Entre as cinco crianças identificadas no espectro, duas apresentaram resultados negativos nos testes clássicos de triagem de autismo. Isso sugere que as ferramentas tradicionais, desenvolvidas para crianças com capacidade de movimento e comunicação verbal, podem não captar os sinais de autismo em crianças com limitações motoras severas.
A neurocientista Mara Cordeiro destacou que essas limitações, juntamente com a dependência de cuidados, podem dificultar o reconhecimento de TEA. Ela enfatiza a importância de ampliar a avaliação clínica para além da função motora, incluindo avaliação periódica das áreas de comunicação, cognição e comportamento adaptativo.
Qual a importância de intervenções precoces no tratamento de AME?
O estudo observou que intervenções precoces no tratamento de AME podem ser benéficas. Crianças que iniciaram tratamento antes do aparecimento dos sintomas apresentaram desempenho cognitivo melhor em comparação àquelas que começaram tardiamente. Mara Cordeiro salientou a necessidade de mais pesquisas para entender o impacto específico das terapias precoces em diferentes aspectos do desenvolvimento.
A pesquisa reforça a necessidade de adaptar instrumentos de rastreamento para crianças com limitações motoras, garantindo que sinais de TEA não passem despercebidos. A atualização dessas ferramentas tem potencial para orientar futuros protocolos do Sistema Único de Saúde (SUS) e da rede privada em todo o Brasil. Com avanços nas terapias para AME, essas crianças têm apresentado uma evolução motora melhorada, o que torna ainda mais crucial o acompanhamento adequado de seu desenvolvimento cognitivo e comportamental.



