
Nesta quinta-feira, 2 de abril, data em que se celebra o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, dados globais revelam um salto significativo nos diagnósticos do transtorno na fase adulta. De acordo com informações da Folha de S.Paulo, o fenômeno é impulsionado pela melhoria na capacidade de identificação médica, atualizações nos critérios de avaliação e pela redução do estigma social em torno da neurodivergência.
Um levantamento realizado nos Estados Unidos revelou que, entre 2011 e 2022, a detecção do transtorno em pessoas com idade entre 26 e 34 anos cresceu 450%. Adicionalmente, um relatório publicado na renomada revista científica britânica The Lancet Psychiatry em 2025 estimou que, em 2021, uma em cada 127 pessoas no mundo estava no espectro autista. Isso representa uma alta de 53,1% em relação aos dados de 2019.
Por que o número de adultos com autismo está aumentando?
Especialistas apontam que a prevalência do transtorno não mudou, mas sim a qualidade da informação e as metodologias de triagem clínica. A neuropsicóloga Thais Barbisan esclarece que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não surge na vida adulta, pois a pessoa já nasce com esse funcionamento neurológico. Os casos descobertos tardiamente concentram-se principalmente no nível 1 de suporte (frequentemente chamado de autismo leve), no qual os sintomas apresentam-se de forma mais sutil, permitindo que o indivíduo mascare as características ao longo do tempo.
O psiquiatra José Guilherme Giocondo, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, corrobora essa visão técnica sobre o cenário atual.
“Não aumentou a prevalência do autismo, o que cresceu foi o diagnóstico e as informações com maior qualidade.”
Como o diagnóstico tardio afeta a vida dos pacientes?
O consultor de comunicação Thomás Levy, de 41 anos, recebeu a confirmação do TEA apenas em 2019. Ele relata um histórico de dificuldades de socialização e sensação de deslocamento durante a fase escolar nas décadas anteriores, quando o entendimento sobre neurodivergência era extremamente limitado. Para ele, a descoberta médica trouxe alívio e autoconhecimento profundo.
“Teve um lado de luto e um de libertação, no sentido de: eu não estou quebrado, não há nenhuma coisa intrinsecamente errada comigo, é uma característica do autismo que não posso alterar, mas posso trabalhar para que tenha mais qualidade de vida.”
A psiquiatra Fabricia Signorelli, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta que o avanço na idade traz exigências sociais rigorosas que evidenciam as dificuldades do adulto neurodivergente. Sem acompanhamento profissional, esse cenário favorece o surgimento de comorbidades psicológicas. A camuflagem dos traços autistas ocorre em ambos os sexos, contudo, é notada com maior frequência entre as mulheres, que desenvolvem estratégias complexas de adaptação desde a infância. A jornalista Debora Saueressig, de 48 anos, foi diagnosticada em 2024 e relata que a descoberta encerrou uma longa busca por respostas sobre o seu comportamento ao longo da vida.
Quais são os benefícios do diagnóstico e tratamento na infância?
Apesar do aumento exponencial das descobertas na fase adulta, a identificação nos primeiros anos de vida permanece como o cenário ideal na medicina. A janela de oportunidade terapêutica antes dos seis anos de idade utiliza a neuroplasticidade do cérebro infantil para gerar adaptações mais eficazes e duradouras. Entre os principais benefícios da intervenção médica precoce, destacam-se fatores cruciais para o desenvolvimento:
- Desenvolvimento estruturado de habilidades sociais e comunicativas.
- Ampliação da autonomia do indivíduo para as atividades diárias rotineiras.
- Melhoria no nível de suporte necessário, inclusive em diagnósticos mais severos.
- Preservação da funcionalidade da saúde mental, prevenindo sobrecargas emocionais.
- Redução de riscos associados, como evasão escolar, depressão severa e transtornos de ansiedade.
A unificação do espectro autista pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria em 2013 e adotado mundialmente, representou um marco científico que permitiu uma compreensão dimensional da condição neurológica. Dessa forma, independentemente de ocorrer na infância ou na maturidade, o laudo médico adequado possibilita que os pacientes acessem abordagens terapêuticas multidisciplinares corretas, envolvendo psicólogos, psiquiatras e outros profissionais especializados da área de saúde.


