
O astronauta canadense Jeremy Hansen, integrante da missão Artemis 2, programada pela NASA para uma jornada de dez dias ao redor da Lua, carrega uma descoberta geológica rara em seu currículo terrestre. O programa Artemis possui relevância internacional e conta com a participação do Brasil, que assinou os Acordos Artemis em 2021, comprometendo-se formalmente com o esforço global de exploração pacífica do espaço. Há 15 anos, antes mesmo de ingressar na Agência Espacial Canadense (CSA), Hansen ajudou a identificar uma das mais incomuns crateras de impacto do nosso planeta, localizada em uma área remota de Saskatchewan, no Canadá.
De acordo com informações do Olhar Digital, a descoberta ocorreu em 2011 durante uma expedição científica ao Lago Gow. A equipe de pesquisadores da Universidade do Ontário Ocidental, que contava com o atual astronauta, explorou presencialmente o local que antes só era conhecido pela ciência por meio de imagens de satélite.
Como o astronauta da Artemis 2 auxiliou na descoberta da cratera?
O artigo detalhando a exploração geológica foi publicado na revista científica Meteoritics & Planetary Science em maio de 2023. A pesquisa foi liderada pelo renomado geólogo Gordon Osinski. Embora Jeremy Hansen não seja listado como o autor principal do estudo, seu nome foi citado de forma destacada nos agradecimentos pela companhia essencial durante o exigente trabalho de campo.
A expedição reuniu o geólogo líder, o astronauta, que possui mestrado em física, e dois estudantes universitários. Eles viajaram para o local isolado visando mapear características geológicas raras que se formaram há cerca de 200 milhões de anos, cujos detalhes estruturais haviam sido ocultados pela passagem do tempo.
“Embarcamos em um hidroavião e usamos uma canoa também, o que foi uma maneira divertida de fazer uma expedição de geologia. Desembarcamos na ilha, montamos acampamento e depois saímos para explorar”, relatou o pesquisador Gordon Osinski sobre a complexa logística da jornada inicial de mapeamento terrestre.
Por que as agências espaciais valorizam expedições geológicas na Terra?
A participação de astronautas em pesquisas de campo em nosso planeta é altamente incentivada e valorizada por instituições como a NASA. O treinamento prático em ambientes inóspitos e complexos serve como preparação direta para o trabalho científico que será realizado na superfície de outros corpos planetários, incluindo a aproximação lunar a bordo da cápsula Orion.
“A razão pela qual vou nessas expedições de geologia é porque, como astronauta, estamos nos preparando para fazer exploração em outros corpos planetários e, é claro, a geologia será uma grande parte da ciência que fazemos lá”, explicou Jeremy Hansen em uma entrevista concedida no ano de 2015 para detalhar seu envolvimento com a geologia.
O que torna a cratera do Lago Gow tão especial para a ciência espacial?
A cratera de Saskatchewan impressionou os cientistas pelos tipos incomuns de pedras encontradas na região. O mapeamento da ilha central do lago revelou a forte presença de rochas derretidas por impacto, conhecidas como juntas colunares. Essas formações criam rachaduras hexagonais à medida que a lava de basalto esfria, uma característica considerada extremamente rara em todo o mundo.
Os pesquisadores destacaram pontos fundamentais sobre a descoberta que reconfiguram o entendimento geológico da área:
- O local é classificado como uma cratera de transição, um tipo geológico encontrado em apenas um outro lugar documentado da Terra: o Goat Paddock, localizado na Austrália.
- As imagens de satélite enganaram os cientistas por 50 anos, sugerindo erroneamente que se tratava de uma cratera complexa originada pelo colapso de um pico central.
- As rochas identificadas na ilha não emergiram das profundezas terrestres, mas sim resultaram de brechas de impacto e materiais derretidos gerados diretamente pelo choque do meteorito.
Na superfície lunar, as crateras de transição são formações bastante comuns. Consequentemente, o estudo detalhado do Lago Gow oferece uma analogia terrestre inestimável para a compreensão das estruturas localizadas perto do polo sul da Lua, região exata onde a NASA planeja estabelecer missões futuras e construir bases permanentes a partir de 2028.