As ariranhas foram oficialmente incluídas na lista de animais que exigem proteção urgente da Convenção das Nações Unidas sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS). A decisão ocorreu durante o encontro da organização realizado em Campo Grande, no Brasil, em março de 2026. A medida internacional visa conter o declínio populacional da espécie, que sofre com a rápida degradação de habitats aquáticos na América do Sul.
De acordo com informações da Mongabay Global, o documento que embasou a inclusão na lista aponta uma queda de 50% na população das ariranhas ao longo dos últimos 25 anos. O tamanho físico dos indivíduos também diminuiu, o que indica uma taxa menor de sobrevivência dos filhotes na natureza.
Por que as ariranhas enfrentam risco de extinção na América do Sul?
Historicamente, a caça ilegal em busca de peles dizimou a espécie em grande parte de seu território original, que chegou a abranger mais de nove milhões de quilômetros quadrados, desde a Venezuela até a Argentina. Um relatório da Wildlife Conservation Society indica que muitas dessas populações nunca conseguiram se recuperar, mesmo com o fim da caça comercial em larga escala.
Atualmente, as ameaças incluem a perda constante de habitat para a agricultura e expansão urbana, além da construção de represas. Os rios enfrentam poluição crescente, com destaque para o vazamento de mercúrio e sedimentos provenientes da mineração. Eventos climáticos extremos impulsionados pelas mudanças climáticas, como secas severas e incêndios florestais, agravam de forma contínua a situação da espécie.
Quais são as características ecológicas e a importância desses animais?
Conhecida internacionalmente como a maior das 13 espécies de lontras do mundo, a Pteronura brasiliensis é um animal semiaquático, territorial e exímio nadador. Esses predadores de topo de cadeia alimentar vivem em grupos sociais que variam de dois a 16 membros e constroem suas tocas nas margens dos rios, alimentando-se principalmente de peixes. Atualmente, a espécie está restrita sobretudo às bacias do Rio Amazonas e ao Pantanal.
A presença do animal é considerada um indicador direto da saúde ambiental das bacias hidrográficas. A bióloga Caroline Leuchtenberger, fundadora do Giant Otter Project, destaca a importância desse papel ecológico estratégico.
“Costumamos dizer que a ariranha é a sentinela dos rios, pois sua presença significa que os ecossistemas são saudáveis”
, afirmou a especialista.
Embora não realizem migrações sazonais clássicas, a extensão de seus territórios exige ações conjuntas entre os países da região. Leuchtenberger ressalta o impacto sistêmico positivo dessa preservação para a biodiversidade.
“Todas as outras espécies que dependem da integridade desses rios se beneficiarão de um esforço maior para a conservação das ariranhas”
, concluiu.
Como a convenção da ONU pretende garantir a preservação da espécie?
A proposta de proteção reforçada foi submetida pela França, justificada pela presença dos animais na Guiana Francesa, e recebeu apoio do Brasil, Peru, Bolívia, Panamá, Equador, Paraguai, União Europeia, Senegal e Venezuela. A espécie foi incluída simultaneamente nos Anexos I e II da convenção. O primeiro abrange animais que necessitam de ação rigorosa dos Estados-membros, enquanto o segundo incentiva a cooperação transnacional para medidas conjuntas.
Susan Lieberman, vice-presidente de política internacional da Wildlife Conservation Society, avalia o impacto diplomático e legal da medida tomada pelo comitê.
“Listar a ariranha no Anexo I e no Anexo II da CMS enviará um sinal claro de que é necessária uma ação internacional urgente e coordenada para conservar essa espécie e os ecossistemas de água doce dos quais ela depende”
, explicou.
O próximo passo das nações envolvidas consiste na criação de um plano de ação coordenado, que deverá ser aprovado na próxima conferência, programada para ocorrer na Alemanha em 2029. O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil, como anfitrião do encontro mais recente, terá a responsabilidade de impulsionar a implementação dessas diretrizes globais. O texto aprovado elenca os principais desafios imediatos a serem superados nos próximos anos:
- Mitigação da perda de conectividade hídrica entre as bacias hidrográficas transfronteiriças;
- Promoção da coexistência pacífica e segura entre pescadores de comunidades locais e as populações de ariranhas;
- Contenção do declínio populacional, projetado em uma queda de mais 50% para os próximos 25 anos caso nenhuma intervenção estatal seja feita;
- Fomento do ecoturismo ecológico como ferramenta de conscientização ambiental e geração de renda nas regiões afetadas.
O secretário-executivo da pasta ambiental brasileira e presidente da COP15, João Paulo Capobianco, definiu a responsabilidade multilateral assumida no encontro das Nações Unidas.
“Protegemos espécies que podem nunca permanecer dentro de nossas fronteiras. Investimos em um patrimônio natural que não possuímos, mas pelo qual todos somos responsáveis. Ao fazer isso, damos sentido concreto à solidariedade global”
, finalizou.