Pesquisadores e conservacionistas conseguiram registrar as primeiras imagens em armadilhas fotográficas do esquivo cabrito-azul-de-pemba, um minúsculo antílope que habita um remanescente de floresta nativa no norte da Ilha de Pemba, no arquipélago de Zanzibar, pertencente à Tanzânia. O uso dessa tecnologia de monitoramento é semelhante ao aplicado por cientistas brasileiros para registrar espécies ameaçadas em biomas como o Pantanal e a Mata Atlântica. De acordo com informações da Mongabay Global, o animal mede apenas 30 centímetros de altura na cernelha e é considerado possivelmente uma subespécie do cabrito-azul (Philantomba monticola), amplamente encontrado no continente africano. A descoberta ocorreu no final de janeiro de 2026 e encerra um período de mais de 20 anos sem documentação oficial da espécie no local.
Para alcançar esse marco científico, a ecologista Margherita Rinaldi, atuando em estreita colaboração com o grupo de conservação Istituto Oikos, sediado na Itália, instalou cerca de 20 armadilhas fotográficas na Reserva Florestal da Natureza de Ngezi. Esses equipamentos consistem em câmeras ativadas por movimento que fotografam automaticamente os animais que passam. A equipe selecionou pontos específicos onde guardas florestais experientes detectaram trilhas quase invisíveis desses mamíferos em meio à densa vegetação rasteira.
Onde a espécie foi encontrada e qual a importância genética?
As câmeras detectaram a presença dos antílopes em pelo menos metade dos 2.030 hectares de extensão da reserva natural. Silvia Ceppi, conselheira científica do Istituto Oikos, relatou que as imagens fornecem a primeira evidência fotográfica concreta desses animais na região. Além dos registros visuais, a equipe de pesquisadores também encontrou pilhas de fezes do antílope. Esse material biológico será fundamental para determinar a composição genética dos animais e revelar o quão distintos eles são em relação à população continental.
“Estamos muito animados por eles estarem lá e bem distribuídos”, afirmou Silvia Ceppi.
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A conselheira explicou que existem duas hipóteses sobre a origem desses animais. É possível que os cabritos-azuis tenham sido introduzidos na Ilha de Pemba há mais de um século. Por outro lado, existe a possibilidade de que representem uma população natural isolada durante milênios. Confirmar o animal como subespécie pode impulsionar drasticamente os esforços de conservação ambiental na área.
Quais são as ameaças locais e os passos para a conservação?
O reconhecimento formal traria benefícios vitais, especialmente porque um empreendimento hoteleiro ecológico está planejado para abranger uma grande faixa de floresta costeira intacta. A presença de uma espécie rara ameaçada e isolada daria um peso significativo para a conservação de todas as espécies da Reserva de Ngezi. O local abriga aves e mamíferos únicos, como a coruja-de-pemba (Otus pembaensis), a raposa-voadora-de-pemba (Pteropus voeltzkowi) e cerca de 500 espécies de plantas.
Muitas das imagens foram capturadas na Península de Tondooni. Este local, situado dentro dos limites da reserva, está cercado por vilarejos e enfrenta pressão decorrente de atividades ilegais. Os principais fatores de ameaça ambiental incluem:
- O corte não autorizado de árvores, causando degradação e perda de habitat.
- A captura sistemática de animais silvestres por meio de armadilhas mortais.
Para combater essas ameaças, financiamentos recentes do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos permitiram a contratação de guardas adicionais focados na proteção direta dos antílopes. O trabalho em campo recebe apoio de organizações respeitadas como a Fondation Audemars-Watkins, a Fondation Franklinia e a União Europeia.
Por que monitorar pequenos mamíferos ajuda o ecossistema?
Hanna Rosti, bióloga da Universidade de Helsinque que estuda híraces na Tanzânia e em Zanzibar, destacou a importância de pesquisas que evidenciam mamíferos sobrevivendo nos últimos fragmentos de habitat insular. Segundo a especialista, o trabalho serve como um registro da história natural das espécies, atuando como um arquivo documental essencial caso o ecossistema original seja completamente perdido.
“A conservação de Ngezi é extremamente importante, pois este único pedaço restante de habitat nativo ainda abriga espécies não descritas”, acrescentou Hanna Rosti.
O caso do antílope na Ilha de Pemba exemplifica a urgência de proteger áreas que funcionam como santuários de biodiversidade, evitando que linhagens inteiras desapareçam antes de serem compreendidas pela ciência. A proteção desses fragmentos reflete os mesmos desafios enfrentados por unidades de conservação no Brasil, onde ilhas de vegetação nativa abrigam as últimas populações de espécies severamente ameaçadas.