Animais classificados como de “fauna não carismática”, como serpentes, anfíbios e invertebrados, tendem a receber menos financiamento para pesquisa e conservação, embora muitos estejam sob forte ameaça de extinção. A avaliação aparece em reportagem publicada nesta segunda-feira, 31 de março de 2026, com base em estudos científicos e em relatos de pesquisadores que atuam no Brasil. De acordo com informações da Folha Ambiente, a visão negativa do público sobre determinadas espécies ajuda a reduzir o interesse social e financeiro por sua proteção.
Na reportagem, o biólogo Breno Almeida, diretor do Centro Amazônico de Herpetologia, no Pará, relata que cresceu em Goiás ouvindo que serpentes eram perigosas e deveriam causar medo. Hoje, ele trabalha justamente para mudar essa percepção. O centro recebe animais feridos que não podem voltar ao habitat natural, com foco em serpentes e anfíbios, e também promove visitas guiadas para enfrentar estigmas associados a esses grupos.
Por que animais sem carisma recebem menos atenção?
Segundo a reportagem, a expressão “fauna não carismática” é usada para designar animais que normalmente despertam pouca simpatia na população. Esse distanciamento afeta a conservação, porque espécies vistas com repulsa, medo ou indiferença tendem a atrair menos recursos para estudos e ações de proteção. Já os mamíferos de grande porte costumam concentrar mais interesse público e institucional.
Um estudo publicado em 2025 na revista PNAS apontou que a distribuição de recursos para conservação não costuma seguir apenas o grau de ameaça de extinção, mas também fatores como carisma e porte dos animais. De US$ 1,9 bilhão destinados a medidas de conservação, US$ 1,6 bilhão foram para vertebrados, o equivalente a 84% do total. Os invertebrados ficaram com 6,6%.
Entre os vertebrados, de 70% a 85% dos recursos se concentram em aves e mamíferos. Os répteis, grupo que inclui as cobras, receberam 5,8% do total destinado aos vertebrados. Para os anfíbios, o mesmo trabalho citado na reportagem indica 2,5% do financiamento recente de conservação entre os vertebrados.
Como o viés aparece nas pesquisas científicas?
A desigualdade não se restringe ao financiamento. Um artigo publicado na revista Nature em 2017, citado na reportagem, mostrou desequilíbrio também na produção de conhecimento científico. O estudo analisou 626 milhões de ocorrências registradas no sistema GBIF, sigla em inglês para o Global Biodiversity Information Facility, uma base aberta de dados sobre biodiversidade, distribuídas em 24 grupos de animais.
Mais da metade das ocorrências analisadas era sobre aves, embora elas representassem apenas 1% das espécies catalogadas no portal. Répteis apareceram em 5 milhões de ocorrências, enquanto anfíbios somaram 3,9 milhões. Já os antozoários, grupo de corais e anêmonas, ficaram com 1 milhão de ocorrências, o menor número entre os grupos citados.
Na prática, esse desbalanceamento dificulta o avanço de medidas de conservação. Sem dados suficientes sobre distribuição, comportamento e ameaças, pesquisadores e gestores têm menos base para formular políticas de proteção para espécies pouco estudadas.
Que efeitos a rejeição social provoca sobre esses animais?
A reportagem também aponta que a percepção negativa da população pode gerar violência direta contra algumas espécies. Um estudo brasileiro publicado em 2014 realizou um experimento com modelos plásticos realistas de aranhas, serpentes, pintos e folhas em áreas de menor tráfego de três rodovias. As taxas de atropelamento de aranhas e serpentes foram superiores até mesmo às das folhas, o que, segundo o estudo, sugere certa intencionalidade nesses atropelamentos.
Os pintos, de acordo com o experimento, foram os únicos resgatados por humanos. O resultado reforça a hipótese de que o valor simbólico atribuído a cada espécie influencia a maneira como ela é tratada no cotidiano, inclusive em situações de risco.
No caso dos anfíbios, a rejeição social aparece também em maus-tratos e superstições. O professor Luis Felipe de Toledo Ramos Pereira, da Unicamp, universidade pública estadual de São Paulo, disse à reportagem que esses animais costumam ser associados a nojo e medo. Em estudo publicado em 2024, ele encontrou sapos-cururu mutilados e com a boca colada ou costurada. Segundo o pesquisador, as práticas observadas não estavam ligadas a nenhuma religião específica.
“Que nem o caldeirão da bruxa, o que você vai pôr no caldeirão da bruxa? Não é asa de morcego, pata de barata, perna de sapo?”
Por que os anfíbios estão entre os mais ameaçados?
Conforme levantamento publicado na Nature em 2023 e citado na reportagem, cerca de 40% das espécies de anfíbios estão em risco de extinção, o que coloca essa classe como a mais ameaçada entre os vertebrados. Ainda assim, o grupo recebe parcela reduzida dos recursos de conservação.
Entre os fatores apontados para o declínio dos anfíbios estão:
- perda de habitat;
- doenças;
- mudanças climáticas;
- poluição;
- pressões causadas pela ação humana sobre ambientes terrestres e aquáticos.
Segundo Toledo, os anfíbios são particularmente vulneráveis porque dependem tanto da água quanto da terra ao longo do ciclo de vida. Além disso, a permeabilidade da pele amplia a exposição desses animais à poluição ambiental.
Com o objetivo de ampliar a visibilidade do grupo, o pesquisador articulou a tramitação de dois projetos de lei de autoria do deputado Nilto Tatto (PT-SP): o PL 2585/2024, que institui 7 de maio como Dia Nacional dos Anfíbios, e o PL 5977/2023. Como o texto original foi interrompido, não é possível detalhar corretamente o conteúdo final da segunda proposta sem recorrer a informação externa não confirmada no artigo.
