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Amazônia tem histórias próprias, sem rótulos coloniais sobre sítios arqueológicos

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A arqueologia e a divulgação científica podem ajudar a recuperar trajetórias milenares de povos originários da Amazônia, mas o uso de comparações com referências europeias ou cristãs, segundo os autores do texto, acaba reduzindo e distorcendo esse patrimônio. Publicado em 23 de março de 2026, o artigo discute como sítios arqueológicos amazônicos vêm sendo apresentados na mídia como versões menores de marcos estrangeiros, prática que, na avaliação dos autores, reforça narrativas coloniais e apaga o protagonismo indígena. De acordo com informações da Sumaúma, esse debate é exemplificado por achados em Calçoene, no Amapá, e por referências a sítios em Santarém, no oeste do Pará, e na Colômbia.

O texto é assinado por Claide de Paula Moraes, Anne Rapp Py-Daniel, Mariana Petry Cabral, Márcio Amaral, Jaime Xamen Wai Wai e Glória Tega. Os autores argumentam que, em países de histórias oficiais mais recentes, como os da América Latina, tanto o conhecimento tradicional quanto a ciência têm papel relevante para trazer à tona histórias ignoradas e a profundidade cronológica da presença humana e das raízes culturais no continente.

Por que os autores criticam comparações com Stonehenge, Capela Sistina e Jerusalém?

Segundo o artigo, construções e pinturas indígenas amazônicas e de outras áreas da América têm sido noticiadas como a “Stonehenge da Amazônia”, a “Capela Sistina dos Antigos” ou a “Meca ou Jerusalém amazônica”. Para os autores, esse tipo de enquadramento parece eficaz para atrair atenção, mas tem efeito prejudicial porque subordina a história indígena a referências consagradas do mundo ocidental.

Na avaliação apresentada, esse mecanismo diminui a potência de histórias locais, sabedorias ancestrais e modos indígenas de habitar a Amazônia. Em vez de reconhecer essas trajetórias como autônomas, a comunicação as transforma em derivações de narrativas europeias. O artigo sustenta que essa lógica fortalece o colonialismo ao deslegitimar e apagar contribuições dos povos originários para a formação das sociedades contemporâneas.

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“a arte de nominar é arte de dominar”

A frase, atribuída no texto ao intelectual quilombola Nêgo Bispo, é usada para reforçar a ideia de que nomear por comparação também é uma forma de controle da narrativa. Os autores afirmam que, quando a nomeação parte de parâmetros do colonizador ocidental, ela atua como instrumento de dominação do conhecimento e da leitura histórica.

Como a arqueologia é apresentada como caminho para outra narrativa?

O artigo afirma que milhares e milhões de vestígios arqueológicos apontam para uma história que não existe em função do Ocidente e que não deveria ser adjetivada por semelhanças com outros continentes. Para os autores, essas histórias são autossuficientes e precisam ser valorizadas por si mesmas, sem depender de paralelos com referências cristãs ou europeias.

Nesse contexto, o texto também faz uma crítica à permanência de preconceitos e racismos estruturais na ciência ocidental, apesar das mudanças ocorridas na academia desde o século 19. A avaliação dos autores é que esses traços ainda aparecem tanto na produção de conhecimento quanto na forma de divulgar contextos arqueológicos e históricos não ocidentais.

  • A arqueologia pode dar visibilidade a histórias silenciadas.
  • Comparações com marcos europeus tendem a reduzir a especificidade indígena.
  • A divulgação científica, segundo os autores, precisa evitar reproduzir propostas racistas de origem colonial.

O que o caso de Calçoene revela sobre esse debate?

Um dos exemplos centrais do texto é o sítio arqueológico Rego Grande, em Calçoene, no Amapá, município do extremo norte do estado. Segundo o artigo, pesquisas retomadas nos anos 2000 revelaram uma estrutura formada por grandes pedras de granito, com mais de 1 tonelada, extraídas de pedreiras, transportadas até o local e implantadas no solo em diferentes alinhamentos e inclinações. O conjunto forma uma estrutura aproximadamente circular com cerca de 30 metros de extensão.

De acordo com os autores, o alinhamento dos monólitos demonstra conhecimento astronômico sofisticado das populações indígenas que habitaram a região. O texto afirma que determinados blocos foram alinhados com o nascer do sol no solstício de dezembro, materializando em pedra um observatório solar. As pesquisas também identificaram câmaras funerárias com enterros em grandes potes cerâmicos decorados, em uma área descrita como cemitério revisitado e reorganizado ao longo de séculos.

Para os autores, no entanto, a repercussão nacional e internacional do achado acabou capturada pelo rótulo de “Stonehenge da Amazônia”. O problema, segundo o artigo, é que a criatividade e a originalidade das populações indígenas foram resumidas a uma comparação fácil, que transforma uma invenção local em mera versão reduzida de um cânone europeu. A crítica central do texto é que a Amazônia tem histórias próprias, e que a comunicação sobre seu patrimônio arqueológico precisa reconhecê-las sem recorrer a moldes coloniais.

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