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Alimentos ultraprocessados em crianças refletem preço, rotina e desinformação

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A joyful moment of a mother and her daughter choosing pastries in a supermarket.
A joyful moment of a mother and her daughter choosing pastries in a supermarket. Foto: Gustavo Fring — Pexels License (livre para uso)

Um estudo divulgado nesta terça-feira, 31 de março de 2026, pelo Unicef aponta que o consumo de alimentos ultraprocessados por crianças de até seis anos no Brasil é influenciado por fatores sociais como preço, sobrecarga materna, desinformação nutricional e percepção de que certos produtos industrializados são saudáveis. A pesquisa foi realizada em comunidades urbanas de Belém, Recife e Rio de Janeiro, três capitais brasileiras, com participação de mães, cuidadoras e líderes comunitários, para entender como decisões alimentares são tomadas e por que esses produtos seguem presentes na rotina infantil. De acordo com informações da Folha de S.Paulo, o relatório foi feito em parceria com a Novo Nordisk.

Segundo o levantamento, 52% dos entrevistados consideram iogurtes com sabor saudáveis, enquanto 49% têm a mesma percepção sobre nuggets preparados na fritadeira elétrica. Também aparecem nessa avaliação produtos como suco com açúcar, visto como saudável por 68%, e peixe frito, citado por 63%. O relatório afirma que os responsáveis conseguem diferenciar, em linhas gerais, alimentos saudáveis dos não saudáveis, mas que a forma de preparo e a composição alteram essa percepção.

Por que o estudo relaciona fatores sociais ao consumo infantil?

A pesquisa ouviu moradores de Guamá, em Belém, Ibura, em Recife, e Pavuna, no Rio de Janeiro. Na etapa qualitativa, participaram 80 pessoas entre mães, cuidadoras e lideranças comunitárias. Na fase quantitativa, 514 responsáveis responderam a questionários. A análise foi feita com base no Modelo de Determinantes Comportamentais do Unicef, que considera fatores psicológicos, sociológicos e ambientais ou estruturais.

De acordo com o estudo, a responsabilidade pela alimentação infantil recai majoritariamente sobre as mães. O texto cita a PNAD Contínua de 2022, pesquisa oficial do IBGE sobre características socioeconômicas da população, para afirmar que cerca de 90% das mães são responsáveis por comprar e oferecer alimentos às crianças. Essa centralidade nas decisões alimentares, somada à limitação de redes de apoio, contribui para uma sobrecarga que favorece a busca por praticidade e, consequentemente, o consumo de ultraprocessados.

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Como a rotulagem frontal tem sido percebida pelos consumidores?

O estudo também avaliou a compreensão da rotulagem nutricional frontal, implementada no Brasil em 2022 para alertar quando um alimento tem alto teor de açúcar, sódio ou gordura. Segundo os dados, 55% dos entrevistados disseram nunca ter observado a lupa antes de comprar um produto. Além disso, 62% afirmaram nunca ter deixado de comprar um item por causa da informação nutricional ou dos selos de alerta, e 8% disseram acreditar que um produto com essa rotulagem seria, na verdade, mais saudável.

“A ideia da rotulagem frontal é justamente te ajudar a fazer escolhas alimentares saudáveis de uma forma mais facilitada, mas isso não está acontecendo”, afirma Stephanie Amaral, oficial de saúde e nutrição do Unicef no Brasil.

Ela acrescenta que ainda falta educação nutricional e comunicação voltada ao entendimento do tema, especialmente entre pessoas de baixa escolaridade. Já Raphael Barreto da Conceição Barbosa, pesquisador da Ensp/Fiocruz e professor da Escola de Enfermagem da UFF, afirmou que estratégias de divulgação da indústria alimentícia contribuem para interpretações equivocadas, com uso de imagens de frutas, referências a produtos in natura e selos como vegano ou sem glúten.

“A rotulagem frontal é uma norma recente que teve uma baixa divulgação sobre a sua implementação, apesar de ser bem direta.”

Quais fatores econômicos e sociais aparecem com mais força no levantamento?

Os especialistas ouvidos destacam que o preço dos alimentos pesa na decisão das famílias e que produtos industrializados costumam ser percebidos como mais acessíveis do que alimentos in natura. O estudo também identificou um componente simbólico: em parte dos relatos, oferecer ultraprocessados às crianças aparece associado a bem-estar, recompensa e até a uma ideia de infância feliz.

Barbosa afirma que essa percepção também deve ser analisada sob a ótica de classe, raça e gênero, especialmente diante da realidade de mulheres negras, que enfrentam sobreposição de opressões e acumulam trabalho remunerado e cuidado doméstico. Ele menciona o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, segundo o qual a insegurança alimentar atingiu o dobro dos lares chefiados por pessoas negras em comparação com os chefiados por pessoas brancas, com cenário mais grave em casas lideradas por mulheres negras.

  • Preço mais baixo dos industrializados em relação a alimentos in natura
  • Sobrecarga das mães e escassez de rede de apoio
  • Baixa compreensão da rotulagem frontal
  • Associação dos ultraprocessados à praticidade e à recompensa emocional
  • Influência de desigualdades de classe, raça e gênero

O que o Unicef defende para enfrentar esse cenário?

No relatório, o Unicef reforça a necessidade de fortalecer a regulação da exposição de crianças e adolescentes a alimentos ultraprocessados no Brasil. Entre os pontos mencionados estão a publicidade infantil, a tributação desses produtos e a promoção de ambientes escolares mais saudáveis. A entidade também propõe a expansão de creches e escolas em tempo integral como medida de apoio às famílias.

Para os especialistas, o debate não se resume à redução de preços de alimentos naturais. O estudo indica que o enfrentamento do problema passa por educação alimentar, comunicação em saúde e revisão de crenças consolidadas sobre os ultraprocessados.

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