Em março deste ano, as gigantes da tecnologia Meta (empresa controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp) e Google, através do YouTube, sofreram um revés judicial significativo nos Estados Unidos. As empresas foram condenadas por negligência no design de seus produtos, que foram considerados intencionalmente desenvolvidos para gerar dependência nos usuários. O processo judicial foi movido por uma jovem que argumentou que o uso compulsivo das plataformas digitais, iniciado ainda na infância, agravou severamente seu quadro de depressão e desencadeou outros problemas relacionados à saúde mental.
De acordo com informações do Canaltech, esta deliberação representa uma alteração profunda na maneira como o sistema judiciário norte-americano interpreta o funcionamento das redes sociais. Além deste caso específico, a Meta enfrentou outra derrota judicial no estado do Novo México, onde foi condenada a pagar uma indenização de US$ 375 milhões. O júri estadual concluiu que a companhia infringiu as leis de defesa do consumidor ao falhar na proteção adequada de menores de idade contra predadores sexuais em seus ambientes virtuais.
Este julgamento no Novo México desponta como o primeiro episódio em que um estado dos Estados Unidos obtém vitória em um tribunal contra uma grande corporação de tecnologia sob a acusação de danos provocados a menores. Durante o andamento processual, os promotores americanos chegaram a criar um perfil falso, simulando o comportamento de uma criança de 13 anos. A conta fictícia foi rapidamente abordada por predadores, configurando uma prova fundamental para o veredito final.
Como a visão da Justiça sobre os algoritmos das redes sociais está mudando?
O advogado especialista em Direito do Consumidor e membro da Comissão de Direito Civil da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Stefano Ribeiro Ferri, analisa que o impacto prático dessa decisão extrapola o montante financeiro da punição. A concepção tradicional de que as plataformas operam apenas como canais neutros de distribuição de informações começa a ruir no âmbito jurídico.
As grandes corporações de tecnologia passaram a ser avaliadas sob uma nova ótica. “Essas grandes empresas passaram a ser entendidas não apenas como receptoras de conteúdo, mas também se passou a entender que elas trabalham deliberadamente para que os algoritmos causem dependência”, afirmou o especialista. A engenharia por trás do engajamento agora é vista como um fator ativo de risco aos consumidores.
Diante desse cenário, especialistas traçam um paralelo direto entre o momento atual das companhias de tecnologia e os processos históricos que enfraqueceram as fabricantes de cigarro nos Estados Unidos ao longo da década de 1990. Naquela época, as corporações do setor fumageiro foram judicialmente responsabilizadas por omitir do público o elevado potencial viciante da nicotina.
Quais são os possíveis impactos para as empresas de tecnologia no Brasil?
A transformação no entendimento dos tribunais exige uma análise minuciosa sobre a responsabilidade das corporações. “O que se altera é a visão, passa-se a enxergar com profundidade o produto e como ele é moldado, não só para capturar a atenção das pessoas, mas também para expor eventualmente ao risco”, detalhou Stefano Ribeiro Ferri sobre a semelhança entre os casos da indústria do tabaco e das redes sociais.
Ao observar o cenário nacional — onde a responsabilidade das plataformas é balizada pelo Marco Civil da Internet —, o jurista considera que o protocolo adotado pela Justiça americana deve impulsionar movimentações semelhantes nos tribunais brasileiros. A abertura de ações civis públicas contra as plataformas digitais no Brasil é encarada como uma consequência natural após a consolidação desse precedente internacional. Contudo, a efetividade das punições no país ainda enfrenta entraves estruturais.
Para que a responsabilização ganhe força, os seguintes fatores entram em discussão no contexto jurídico brasileiro:
- O histórico de valores reduzidos aplicados em indenizações por danos morais e materiais no país.
- O enfraquecimento do caráter educativo da pena, o que reduz a capacidade da condenação de inibir a repetição de práticas abusivas por parte das corporações.
- A necessidade de adequar a legislação nacional para lidar especificamente com algoritmos intencionais focados em retenção extrema de atenção.
Por fim, mesmo diante do avanço na proteção legal para crianças e adolescentes, o debate evidencia que as restrições normativas possuem limitações de alcance. O papel desempenhado pelos responsáveis diretos pelos menores segue sendo crucial para a navegação segura na internet. “Nenhuma legislação vai substituir o trabalho parental, de conscientização, de controle”, concluiu o advogado, reforçando a importância do acompanhamento familiar nas atividades digitais.

