A agricultora familiar Adenice Rodrigues, de 24 anos, tornou-se um símbolo de superação e resiliência no município de Breves, no arquipélago do Marajó, no Pará. Após enfrentar um histórico severo de violência doméstica, a produtora rural conseguiu reconstruir sua trajetória profissional e pessoal por meio da assistência técnica e do acesso a políticas públicas de fomento à produção de galinhas caipiras. A transformação ocorreu no Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Ilha dos Macacos, situado às margens do Rio Jupatituba, onde a trabalhadora agora lidera seu próprio empreendimento rural.
De acordo com informações da Agência Pará, o apoio fundamental para essa mudança veio do Governo do Pará, por meio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater-Pará). A instituição atuou não apenas no suporte produtivo, mas também na regularização documental da agricultora, permitindo que ela assumisse a titularidade de benefícios sociais anteriormente controlados pelo ex-companheiro, de quem se desvinculou em meados de 2025, pouco mais de um ano antes da publicação da reportagem, em 23 de março de 2026.
Como a Emater auxiliou na autonomia da produtora?
A atuação da equipe técnica do Escritório Local de Breves foi determinante para que Adenice pudesse estruturar sua criação de aves. O suporte incluiu desde a orientação para a construção das instalações físicas, como o galpão para as galinhas, até a gestão financeira do negócio. Segundo a produtora, o acompanhamento técnico foi um divisor de águas em sua vida, proporcionando o sentimento de reintegração à sociedade e garantindo dignidade para sustentar sua família de forma independente.
Além do suporte técnico direto, a Emater-Pará desempenhou um papel social de mediação. Em conjunto com a associação do assentamento e familiares, a empresa auxiliou na alteração da titularidade do Bolsa Família, garantindo que a agricultora pudesse gerir os próprios recursos. Esse movimento foi essencial para que ela aceitasse integrar novas frentes produtivas, mesmo enquanto se recuperava fisicamente dos traumas sofridos, quando chegou a ficar entre a vida e a morte.
Quais programas de fomento foram acessados por Adenice?
A agricultora foi incluída no Programa Fomento Rural, uma iniciativa do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Pobreza (MDS). O programa é voltado para famílias em situação de pobreza ou extrema pobreza no campo e oferece apoio financeiro e técnico para o desenvolvimento de projetos produtivos. No caso de Adenice, os recursos foram aplicados na expansão de sua atividade principal e em planos futuros:
- Construção e melhoria do abrigo adequado para as galinhas caipiras;
- Aquisição de novas aves para ampliar a escala de produção;
- Garantia de segurança alimentar para ela e seus dependentes;
- Planejamento para o início de uma plantação de açaí no lote familiar.
A execução do fomento prevê pagamentos escalonados para garantir a continuidade do projeto. A agricultora já recebeu a primeira cota do benefício e tem previsão de receber a segunda parcela, no valor de R$ 2 mil, em abril de 2026. Esse capital de giro permite que a produção se torne autossustentável, gerando excedentes para comercialização local e assegurando a manutenção da família sem dependências externas.
Qual a importância da Política de Direitos Difusos para o Marajó?
O caso de Adenice reflete a aplicação prática da Política de Interesse Direitos Difusos e Coletivos da Emater-Pará, oficializada pela Portaria nº 0456/2023. Essa diretriz prioriza a equidade de gênero e o atendimento a grupos vulnerabilizados, assegurando que a assistência rural chegue a quem mais precisa. O objetivo central é promover a autonomia de diversos segmentos da população rural do estado, tais como:
- Povos indígenas e comunidades quilombolas;
- Mulheres assentadas da reforma agrária e agricultoras familiares;
- Extrativistas, pescadoras artesanais e aquicultoras;
- Mulheres que desenvolvem atividades agrícolas em áreas urbanas e periurbanas.
O chefe do Escritório Local de Breves, Jocimar Mendonça, destacou que o papel da assistência técnica pública vai muito além do incremento da produtividade agrícola. Ele ressaltou que o trabalho visa à transformação social e ao resgate da cidadania. Mendonça enfatizou que, ao conquistar independência financeira, Adenice pôde retornar aos estudos e passou a desenvolver suas atividades produtivas com foco no próprio sustento, superando a dependência emocional e financeira.
“O apoio recebido pela Emater foi muito importante porque eu consegui fazer a casa das minhas galinhas e comprei mais. Todo o apoio que recebi significou uma verdadeira transformação em minha vida, porque eu me senti colocada novamente na sociedade e tudo isso é gratificante.”
Atualmente, a produtora mantém uma rotina de cuidados com a saúde, realizando tratamento médico duas vezes por semana no Hospital Regional do Marajó, em Breves. Mesmo diante das cicatrizes físicas e emocionais deixadas pela violência, ela utiliza sua história para incentivar outras mulheres a buscarem ajuda e a denunciarem abusos, reforçando que a independência econômica é um dos pilares para a quebra definitiva do ciclo de violência doméstica.


