Mulheres e meninas são as mais afetadas pelas desigualdades no acesso à água e ao saneamento básico no Brasil, segundo dados divulgados neste sábado, 22 de março de 2026, pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), no contexto do Dia Mundial da Água. A data é celebrada anualmente em 22 de março e foi criada pela Organização das Nações Unidas para chamar atenção para temas ligados à água e ao saneamento. O levantamento mostra avanços no país, mas indica que persistem diferenças importantes entre áreas urbanas e rurais, regiões do país e grupos populacionais, o que impacta saúde, dignidade, educação e geração de renda.
De acordo com informações da Agência Brasil, os dados mais recentes sobre o cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 da Organização das Nações Unidas mostram que, em 2023, 98,1% da população brasileira tinha acesso à água potável segura. Ainda assim, o índice cai para 88% nas áreas rurais e recua para 79,4% na Região Norte e 81,9% no Nordeste.
O que os dados mostram sobre água e saneamento no Brasil?
O Objetivo 6 da ONU estabelece, para 2030, a meta de assegurar disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos. No caso brasileiro, a ANA, autarquia federal responsável pela política nacional de recursos hídricos e pela regulação de referência do saneamento, afirma que houve avanço, mas os indicadores ainda escondem desigualdades profundas, especialmente em territórios historicamente excluídos e entre a população não branca.
No saneamento, a situação é mais crítica. Em 2023, apenas 59,9% da população contava com esgotamento sanitário seguro. Na Região Norte, o percentual era de 39,6%. Além disso, o Brasil trata 57,6% do esgoto gerado, o que significa que quase metade dos resíduos ainda é descartada sem tratamento adequado, com efeitos diretos sobre o meio ambiente, a saúde pública e a segurança hídrica.
“Mais do que uma questão de cobertura, o problema está em quem ainda fica para trás. Populações em áreas rurais, periferias urbanas e territórios historicamente excluídos concentram os maiores déficits de acesso à água, ao saneamento e à higiene”, destacou a ANA, em nota.
Por que mulheres e meninas sofrem mais com essa desigualdade?
Segundo a ANA, a ausência desses serviços recai de forma desproporcional sobre mulheres e meninas. Quando falta água nas residências, são elas que, em muitos casos, assumem a coleta de água e os cuidados domésticos e familiares. Isso amplia a sobrecarga de trabalho, expõe a riscos sanitários e aumenta situações de vulnerabilidade.
“Sem água na torneira, são elas as principais responsáveis pela coleta de água e pelos cuidados com a casa e com a família – tarefas que se tornam mais difíceis, demoradas e exaustivas quando faltam serviços adequados. Sobrecarregadas, ainda são expostas a graves riscos sanitários e de violência nesse contexto de vulnerabilidade”, acrescentou a Agência.
A agência também afirma que a falta de acesso à água e ao saneamento compromete a equidade de gênero, ao atingir diretamente a saúde, a dignidade e as oportunidades dessas mulheres. O problema, segundo a ANA, amplia o trabalho não remunerado e limita o acesso à educação e à geração de renda.
“Sem água e sem saneamento, a desigualdade se perpetua”, frisou a agência.
Como especialistas relacionam água, educação e renda?
Para a professora da Universidade de Brasília (UnB) e ecopedagoga Vera Lessa Catalão, a preservação dos recursos hídricos exige mudança nos padrões de consumo e reconhecimento do papel das mulheres na gestão da água. Ela afirmou que, especialmente em comunidades ribeirinhas e periferias urbanas, a gestão do recurso faz parte da rotina feminina e está ligada à garantia de saúde e higiene das famílias.
“Elas que providenciam ou que reclamam do direito à água para lavar as roupas, para mandar seus filhos para a escola. Elas fazem uma gestão mais consciente da água, da importância da água como direito. E por isso eu acho que nós, mulheres, somos as principais convidadas a pensar que cuidados precisamos ter para que a água nossa de cada dia não nos falte”, destacou Catalão, em entrevista à jornalista Mara Régia, do programa Viva Maria, da Rádio Nacional.
A presidente executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, relacionou a desigualdade no saneamento a efeitos concretos na trajetória escolar e econômica da população. Segundo ela, crianças com acesso ao saneamento têm, em média, 9,5 anos de escolaridade, ante 7,5 anos entre aquelas sem esse atendimento.
“A escolaridade média hoje de uma criança que teve acesso ao saneamento é de 9,5 anos. Uma criança que não teve acesso ao saneamento é de 7,5 anos, ou seja, a criança que tem acesso ao saneamento, ela estuda dois anos a mais. E isso pode impactar depois na renda média, na possibilidade de ingressar numa faculdade”, disse em entrevista à Rádio Nacional.
Ela acrescentou que a falta de acesso ao saneamento atinge sobretudo grupos mais vulneráveis. Entre os mais afetados, segundo a dirigente, estão pessoas pretas, pardas, indígenas, jovens de até 20 anos, pessoas com menor escolaridade e com renda média baixa.
- 98,1% da população tinha acesso à água potável segura em 2023
- 88% era o índice de acesso em áreas rurais
- 79,4% foi o percentual registrado na Região Norte
- 81,9% foi o índice verificado no Nordeste
- 59,9% da população contava com esgotamento sanitário seguro
- 57,6% do esgoto gerado no país recebia tratamento
Ao resumir o cenário, a ANA defendeu a integração entre políticas de água, saneamento, clima e justiça social como caminho para enfrentar as desigualdades que ainda persistem no país.
