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Canto de aves fêmeas ganha destaque em livro que revisa visão tradicional da ornitologia

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Um novo livro sobre observação de aves propõe revisar a ideia difundida de que o canto das aves é, em regra, uma característica masculina. A obra The Sound Approach to Birding 2, citada em reportagem publicada neste domingo, 19 de abril de 2026, reúne gravações e análises para destacar o papel das aves fêmeas em vocalizações antes pouco documentadas, com foco em espécies da região do Paleártico Ocidental. De acordo com informações do Guardian Environment, os autores afirmam que guias de campo e arquivos sonoros historicamente sub-representaram os sons produzidos por fêmeas.

A reportagem informa que, em 2016, apenas 0,01% dos sons de aves na biblioteca global Xeno-Canto estavam identificados como femininos. Outro arquivo sonoro tinha 0,03% de registros rotulados dessa forma, segundo um estudo de 2018 mencionado no texto. A nova publicação busca corrigir essa lacuna ao explicar que fêmeas também cantam em disputas territoriais, para afastar outras fêmeas e, em alguns casos, para atrair machos adicionais.

Por que o canto das aves fêmeas foi deixado em segundo plano?

Segundo a pesquisadora e autora Lucy McRobert, ouvida na reportagem, existe uma narrativa equivocada sobre os sons produzidos por aves fêmeas. O entendimento mais comum, diz ela, sustenta que machos cantam para defender território e atrair parceiras, enquanto as fêmeas teriam papel mais passivo. O livro argumenta que o quadro é mais complexo e que muitas espécies apresentam repertórios vocais femininos próprios.

“We’ve got a completely false narrative around female bird sounds and female birdsong,” McRobert said.

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A reportagem acrescenta que essa percepção foi influenciada pela tradição da ornitologia europeia, especialmente a partir de observações da região do Paleártico Ocidental, onde o canto dos machos predomina entre aves canoras. Ainda assim, globalmente, o texto afirma que até 70% das espécies de aves têm fêmeas que cantam. Em muitas aves tropicais, elas vocalizam com intensidade semelhante à dos machos, inclusive em duetos, na defesa territorial e na interação reprodutiva.

O que o novo livro reúne sobre os sons dessas aves?

A obra vem acompanhada de uma biblioteca com 300 sons de 200 espécies, acessíveis pela internet ou por aplicativo. Esses registros foram extraídos do arquivo maior do projeto Sound Approach, fundado em 2000. Segundo a reportagem, o banco tem gravações confirmadas de fêmeas em 41% das espécies encontradas no Paleártico Ocidental, que abrange Europa, norte da África e a maior parte do Oriente Médio.

Mark Constantine, autor do livro e cofundador da marca Lush, afirmou ao jornal que parte do conhecimento popular sobre canto de aves precisa ser revista. Ele cita como exemplo o pato-real, em que a vocalização mais conhecida, o grasnado típico, é feita pela fêmea, enquanto o macho emite um chamado mais discreto e áspero.

“Everything we believe about our birdsong isn’t true,” Constantine said.

Quais exemplos de espécies aparecem na reportagem?

Entre os casos citados está o do acentor-alpino, cujas fêmeas, quando sozinhas, emitem um canto descrito como atraente para os machos. A reportagem diz que as fêmeas mais velhas, que botam ninhadas maiores, apresentam cantos mais elaborados. Também aparece o caso da coruja-do-mato, cujo chamado popularmente dividido entre “tu-whit” e “to-who” não seria exclusivo de um sexo ou de outro, segundo a equipe do Sound Approach.

O texto também menciona espécies em que as diferenças sonoras entre machos e fêmeas já são mais perceptíveis ou melhor documentadas, como:

  • Pato-real: a fêmea grasna; o macho produz um chamado mais baixo e áspero.

  • Noitibó-europeu: machos e fêmeas podem produzir o som noturno característico descrito como “churring”, embora nas fêmeas isso ocorra ocasionalmente.

  • Andorinha-das-chaminés: fêmeas cantam ao lado dos machos durante o cortejo, com vocalizações contínuas e rápidas.

Outra observação relatada envolve o pintarroxo-europeu. Embora haja poucos casos documentados de fêmeas cantando entre pequenos pássaros de jardim, a reportagem diz que fêmeas de pintarroxo cantam em determinados períodos do inverno. Os pesquisadores teriam confirmado isso por meio de anilhamento, observação e gravação.

Como esse debate pode influenciar novas pesquisas?

A escritora Jasmine Donahaye, autora de Birdsplaining, disse ao Guardian que guias antigos frequentemente descreviam fêmeas em comparação com os machos, como versões “mais pálidas” ou “menos vistosas”. Para ela, o reconhecimento dos sons das fêmeas pode abrir novas linhas de investigação sobre comportamento animal e sobre os limites de pressupostos consolidados na literatura de campo.

“How much have we missed because we weren’t asking a question because the assumption was that males sing for all these reasons and females don’t sing?” she said.

Ao reunir gravações, exemplos de espécies e críticas à tradição dos guias de aves, o novo livro reforça uma revisão em curso na ornitologia sobre quem canta, quando canta e com que função. A principal mudança sugerida pela reportagem é menos sobre substituir uma explicação por outra e mais sobre ampliar a escuta para comportamentos que, por muito tempo, receberam pouca atenção científica e editorial.

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