A expansão dos data centers na América Latina avança impulsionada pela computação em nuvem e pela inteligência artificial, mas encontra obstáculos para manter o ritmo de crescimento por causa de limitações de financiamento. De acordo com informações da Megawhat, com base em relatório da Moody’s, a região encerrou 2025 com cerca de 1,4 GW de carga instalada de tecnologia da informação, enquanto aproximadamente 1 GW adicional de capacidade está em construção, sobretudo no segmento de colocation.
Nesse modelo, empresas alugam espaço, energia, refrigeração e segurança em instalações de terceiros para hospedar servidores e equipamentos de TI. Segundo a agência de classificação de risco, grandes campi de data centers exigem compromissos financeiros elevados em terreno, infraestrutura de energia e contratos de locação de longo prazo, o que torna o acesso a crédito flexível e economicamente viável um fator decisivo para a continuidade ou paralisação dos projetos.
Por que o financiamento é um gargalo para os data centers na região?
O relatório aponta que operadoras dos Estados Unidos contam com mercados de capitais mais profundos, com acesso a emissão de títulos corporativos, securitizações, crédito privado e empréstimos bancários de maior porte. Já as plataformas latino-americanas ainda dependem mais de capital de patrocinadores, financiamento bancário e debêntures em moeda local, enquanto soluções estruturadas começam a surgir apenas agora.
A Moody’s observa também que os operadores da região passaram a recorrer mais à dívida nas fases iniciais dos projetos, afastando-se de estruturas fortemente baseadas em capital próprio. Ainda assim, contratos de longo prazo com locatários de hiperescala ajudam a dar visibilidade de receita, permitindo maior alavancagem e reduzindo incertezas sobre fluxo de caixa e risco de refinanciamento.
“Projetamos que o mercado de data centers de colocation, em que os desenvolvedores assumem o risco comercial de construir e alugar uma nova capacidade de data center para uma variedade de locatários, crescerá acentuadamente até 2030, à medida que as empresas migram suas cargas de trabalho e os provedores globais de nuvem ampliam sua presença regional”
Quais empresas e investidores são citados no avanço do setor?
O texto destaca que praticamente todas as principais operadoras de data center da América Latina começaram ou se expandiram com apoio de investidores internacionais. Entre os exemplos citados, a Scala Data Centers iniciou sua trajetória em 2020 com aporte do fundo norte-americano DigitalBridge, o que permitiu à companhia buscar desde o início uma estratégia voltada para hiperescala.
A Ascenty Data Centers aparece como outro caso de expansão apoiada financeiramente, com participação da Digital Realty e da Brookfield Corporation. Já a Odata é mencionada por ter começado com apoio do Pátria Investimentos antes de ser adquirida pela Aligned. O relatório ainda cita a expansão da KIO Networks com investimento da I Squared Capital e da International Finance Corporation, além da criação da Cirion após aquisição de ativos regionais pela Stonepeak.
Quais estruturas financeiras ainda não se desenvolveram na América Latina?
Segundo a Moody’s, operadores da região têm buscado alternativas para refinanciar dívidas de construção e sustentar a expansão da capacidade. Apesar disso, a América Latina ainda não registrou operações com estruturas como títulos lastreados em ativos, conhecidos pela sigla ABS, ou títulos comerciais lastreados em hipotecas, os chamados CMBS, no mercado de data centers.
“Quando os operadores de data centers terminam de construir um novo ativo, eles buscam cada vez mais soluções no mercado de capitais para refinanciar a dívida inicial de construção, e os recursos obtidos contribuem para outros planos de expansão. A América Latina ainda não registrou uma transação de ABS ou CMBS relacionada a data centers. As carteiras na região ainda estão alcançando a escala e o histórico operacional necessários para apoiar essas estruturas, e os arcabouços jurídicos e de investidores estão menos desenvolvidos para essa classe de ativos”
A agência avalia, porém, que companhias como Ascenty, Scala e Cirion já operam diversas instalações estabilizadas com arrendamentos de longo prazo, o que pode abrir espaço para o surgimento dessas alternativas de financiamento no futuro. Nos Estados Unidos, essas transações agrupam recebíveis de locação em títulos e costumam receber avaliações mais altas para as parcelas seniores, com base na previsibilidade do fluxo de caixa.
Quais riscos pesam sobre os projetos de data centers?
O perfil de crédito dos projetos é impactado por diferentes fatores. Entre eles, o relatório menciona a concentração de contratos em número limitado de hiperescaladores globais, o que eleva o risco de não renovação dos arrendamentos. Também entram nessa conta a exposição cambial em contratos em moeda local e em dólares, além da complexidade das obras e dos desafios para garantir fornecimento de energia e água.
- Concentração de contratos em poucos locatários
- Exposição ao risco cambial
- Complexidade das obras
- Desafios para assegurar energia e água
- Necessidade adicional de financiamento
O relatório ressalta ainda que bancos internacionais costumam oferecer empréstimos em dólares, alinhados à moeda de muitos contratos de hiperescala. No Brasil, por outro lado, bancos locais e o mercado doméstico de capitais têm papel central no financiamento intermediário. As debêntures em moeda local oferecem base ampla de investidores e incentivos fiscais para emissões ligadas à infraestrutura, mas geralmente trazem covenants restritivos, limitando aumentos mais expressivos de alavancagem durante a fase de construção.
Qual é a posição do Brasil nesse mercado?
O Brasil é apontado como mercado âncora de data centers na América Latina, concentrando mais de 60% da capacidade e dos investimentos existentes. Na sequência aparecem México e Chile, enquanto Colômbia, Peru e Argentina avançam a partir de bases menores.
Segundo a Moody’s, anúncios recentes de novos empreendimentos reforçam o protagonismo brasileiro, com projetos multibilionários voltados para inteligência artificial e hiperescala. O quadro descrito pela agência indica um setor em expansão, mas ainda dependente do amadurecimento de instrumentos financeiros e de maior escala operacional para sustentar o crescimento esperado nos próximos anos.