Um fragmento de crânio encontrado entre fósseis não classificados em um museu ajudou paleontólogos a concluir que a equidna-gigante de Owen, a Megalibgwilia owenii, viveu em Victoria, na Austrália, durante o Pleistoceno. A peça havia sido coletada em 1907 na caverna Foul Air, no complexo de cavernas de Buchan, em East Gippsland, e permaneceu por mais de um século sem identificação precisa. De acordo com informações do Guardian Environment, o achado preenche uma lacuna de cerca de 1.000 quilômetros na distribuição conhecida da espécie.
O fóssil foi reconhecido por Tim Ziegler, gerente da coleção de paleontologia de vertebrados do Museums Victoria Research Institute. Segundo o relato, ele encontrou o fragmento em uma bandeja com fósseis não separados e percebeu características anatômicas que indicavam tratar-se do bico de uma equidna, em dimensões incomuns. A confirmação exigiu trabalho adicional, incluindo varreduras em três dimensões de exemplares modernos e fósseis mantidos em coleções de museus de diferentes partes do país.
Como o fóssil foi identificado mais de um século depois?
Ziegler afirmou que o fragmento havia provavelmente sido confundido com parte da pata traseira de um pequeno canguru. Ao examinar a peça, porém, ele observou a simetria do fóssil, a curva do palato e espaços internos por onde o ar passaria durante a respiração. Esses elementos o levaram a suspeitar de que se tratava de um bico de equidna de grande porte.
“I remember plucking out this one bone fragment, which isn’t much longer than your finger,” Ziegler said. “It was just one among many – I think it had probably been mistaken for a hind limb of a small kangaroo.”
— Publicidade —Google AdSense • Slot in-article
“I knew what I was looking at in an instinctive sense, but then the job is to document it, to demonstrate it and to prove it,” he said.
Com apoio de arquivos históricos, o pesquisador confirmou que o espécime havia sido recolhido pelo funcionário de museu Frank Spry em uma expedição à Foul Air Cave, realizada em 1907. A pesquisa resultante foi publicada na revista Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology.
O que se sabe sobre a equidna-gigante de Owen?
A espécie viveu no Pleistoceno, época geológica iniciada há 2,5 milhões de anos. De acordo com a reportagem, o animal media cerca de um metro de comprimento e podia pesar até 15 quilos, aproximadamente o dobro do tamanho das equidnas modernas da Austrália. Fósseis desse monotremado extinto já haviam sido encontrados em outras regiões australianas, como Austrália Ocidental, Tasmânia, Nova Gales do Sul e Austrália do Sul.
Ziegler disse que a equidna-gigante de Owen provavelmente tinha porte semelhante ao das equidnas-de-bico-longo do gênero Zaglossus, hoje presentes nos trópicos da Nova Guiné. Segundo ele, o esqueleto do animal extinto, porém, era mais robusto, com marcas musculares mais profundas e maiores pontos de inserção de ligamentos, indicando uso de mais força na interação com o ambiente.
“But its skeleton is much more robust than that comparably sized animal. Its bones, particularly in the limbs, have deeper, more prominent muscle scars and larger attachments for ligaments that showed it was using much greater force when it interacted with the landscape,” Ziegler said.
Com base nessas características, os pesquisadores consideram que o animal poderia cavar em busca de larvas enterradas, presas maiores, besouros ou mariposas bogong, além de arrancar cascas de árvores para acessar alimento.
Por que a descoberta em Victoria é relevante?
A identificação do exemplar de Buchan ajuda a explicar uma ausência que chamava atenção no registro fóssil do estado de Victoria. Antes desse achado, havia registros da espécie em diferentes pontos da Austrália e na Tasmânia, mas não em Victoria, apesar de áreas historicamente temperadas e florestadas parecerem compatíveis com a presença do animal durante a era glacial.
Segundo Ziegler, os fósseis mais antigos conhecidos haviam sido coletados em Nova Gales do Sul, na década de 1860. Depois disso, exemplares foram localizados no sudoeste da Austrália Ocidental, na Mammoth Cave, e também na região de Naracoorte, na Austrália do Sul. Na Tasmânia, os fósseis também foram encontrados, em um período em que a ilha provavelmente estava conectada ao continente por uma ponte de terra.
- O fóssil de Victoria foi coletado em 1907.
- A identificação inicial por Tim Ziegler ocorreu em 2021.
- A descoberta preenche uma lacuna de cerca de 1.000 quilômetros na distribuição conhecida da espécie.
- O estudo foi publicado na revista Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology.
“It turns out they were there all along. And we just needed the right moment to recognise their presence.”
A conclusão reforça a importância de reexaminar acervos históricos de museus. Neste caso, uma peça guardada por décadas em meio a material não catalogado ampliou o mapa conhecido de uma espécie extinta e trouxe novas evidências sobre a fauna pré-histórica de Victoria.