Um vazamento de óleo no rio Nistru, responsável por 80% da água potável da Moldávia, levou o país a declarar alerta ambiental em março de 2026, após um ataque russo ao complexo hidrelétrico de Novodnistrovsk, na Ucrânia, segundo autoridades moldavas. O episódio começou a ganhar visibilidade depois que o vlogueiro de natureza Ilie Cojocari registrou manchas escuras e cheiro de combustível nas águas em Naslavcea, vila moldava na fronteira com a Ucrânia. De acordo com informações do Guardian Environment, a presidente Maia Sandu atribuiu a responsabilidade pelo derramamento a Moscou.
Dois dias antes das filmagens, a Rússia havia atacado a usina hidrelétrica de Novodnistrovsk, a cerca de 15 milhas rio acima. Cojocari afirmou que passou a noite acordado com o som dos bombardeios e disse que ninguém dormiu no distrito moldavo de Ocniţa naquela noite. Inicialmente, não havia informações oficiais dos governos da Ucrânia ou da Moldávia sobre a origem da contaminação, mas, após a divulgação das imagens, o Ministério do Meio Ambiente de Chişinău procurou o autor para confirmar a autenticidade do material.
Como o vazamento afetou o abastecimento de água na Moldávia?
O governo moldavo montou um centro de crise para monitorar o derramamento e conter o poluente. Barreiras e armadilhas de óleo foram instaladas no rio com materiais absorventes, enquanto autoridades passaram a fornecer água por meios alternativos à população. O problema foi tratado como uma crise nacional porque o Nistru nasce nos Cárpatos, passa pela Ucrânia e abastece grande parte do território moldavo antes de desaguar no Mar Negro.
Segundo o relato publicado pelo Guardian, manchas de óleo foram detectadas até Dubăsari, mais de 200 quilômetros distante de Naslavcea, onde a contaminação foi inicialmente observada. Em Bălți, a segunda maior cidade do país, com cerca de 120 mil habitantes, a escassez de água foi uma das consequências mais sentidas. Forças do Exército e da polícia foram mobilizadas para ajudar na distribuição emergencial.
A moradora Irina, de 39 anos e mãe de três filhos, relatou que passou a buscar água em um poço duas vezes por dia com o marido, antes de as crianças acordarem e depois do expediente. Em suas palavras, a fila chegava a crescer rapidamente. As aulas escolares passaram ao formato on-line durante a crise, e ela precisou faltar ao trabalho para ficar em casa com os filhos, de sete e 13 anos. No comércio onde trabalha como caixa, segundo o texto original, as prateleiras com garrafas grandes de água esvaziavam em poucas horas.
Por que autoridades moldavas associam o caso à guerra da Ucrânia?
A presidente Maia Sandu afirmou que a Rússia tinha responsabilidade total pelo derramamento. O artigo também relata que o ministro do Meio Ambiente, Gheorghe Hajder, divulgou vídeos em campo para atualizar a população sobre a evolução da crise. A Moldávia convive há quatro anos com os efeitos indiretos da guerra na Ucrânia, incluindo entrada de refugiados, violações de espaço aéreo por drones russos, apagões e impactos econômicos.
O texto informa que mais de 2 milhões de refugiados passaram pela Moldávia desde o início do conflito, em um país de 3 milhões de habitantes, e cerca de 140 mil ucranianos se instalaram no território moldavo. Em 2022, a inflação no país chegou a 35%, e atualmente está em torno de 5%, ainda segundo o artigo. Em 31 de janeiro, a Moldávia declarou emergência energética após um ataque russo a uma linha de energia na Ucrânia reduzir a capacidade de abastecimento elétrico de Chişinău.
A deputada Larisa Novac, do partido governista Ação e Solidariedade, classificou o episódio como uma situação sem precedentes e um ataque à segurança moldava. Já o prefeito Vladimir Zgavordei, responsável por três vilarejos no distrito de Florești, afirmou ter organizado caminhões dos bombeiros para levar água a moradores e também a animais de fazenda em áreas sem poços.
Quais foram as respostas internas e externas à crise?
A reportagem afirma que aliados europeus da Moldávia ofereceram apoio emergencial. Como país candidato à adesão à União Europeia, a Moldávia contou com a ativação de um mecanismo de ajuda de emergência por Bruxelas. Romênia e Polônia enviaram assistência para tentar impedir que o combustível avançasse em direção a Chişinău, cidade que concentra cerca de um terço da população do país e depende quase integralmente do Nistru para abastecimento.
- Em 16 de março, a Moldávia declarou alerta ambiental.
- Em 18 de março, as barreiras no rio estabilizaram o óleo em níveis considerados seguros nos distritos mais afetados.
- 48 horas depois, as autoridades voltaram a permitir o uso da água da torneira proveniente do Nistru.
- Em 25 de março, Gheorghe Hajder informou que não haviam sido observadas novas manchas na origem do vazamento, embora o monitoramento continuasse rio abaixo.
Ecologistas citados no artigo alertaram que toda a cadeia alimentar poderia ser afetada, além de peixes e aves aquáticas, embora as autoridades moldavas não tenham registrado, até aquele momento, impacto sobre a fauna. O ministério informou que imagens de aves mortas divulgadas nas redes sociais indicavam, após exames laboratoriais, gripe aviária ou outras causas naturais.
Como a disputa de narrativas influenciou a crise?
Além do desafio ambiental, a Moldávia passou a enfrentar uma disputa política e informacional sobre a origem do vazamento. Enquanto o governo pró-europeu responsabiliza Moscou pelo episódio, propagandistas pró-Rússia, segundo o artigo, sustentam que a crise teria sido causada por um acidente com um caminhão ucraniano em uma ponte em Otaci-Moghilau, sem relação com a guerra.
Cojocari contestou essa versão ao afirmar que esteve no local citado e não encontrou mancha de óleo, além de destacar que a ponte fica abaixo de Naslavcea no curso do rio. Ele também relatou ter removido dois vídeos após receber ataques on-line de pessoas que negavam a responsabilidade russa. O caso, segundo o texto, expôs não apenas a fragilidade do abastecimento de água da Moldávia diante da guerra em seu entorno, mas também a divisão interna sobre como interpretar a crise.