
O jornalismo investigativo voltado para o meio ambiente na América Latina tem adotado novas tecnologias e colaborações internacionais para documentar atividades ilícitas na Amazônia e em outros biomas. Em março de 2026, o fundador do portal Mongabay, Rhett Ayers Butler, conduziu uma entrevista com Alexa Vélez, editora-chefe do braço latino-americano do veículo, para debater as mudanças na cobertura de crimes ecológicos. O diálogo explorou como imagens de satélite, dados abertos e o trabalho conjunto de repórteres ajudam a revelar infrações que começam em áreas remotas e, muitas vezes, estão conectadas ao crime organizado.
De acordo com informações do Mongabay Global, as práticas investigativas modernas fundem a reportagem de campo com ferramentas avançadas para rastrear o desmatamento, a mineração ilegal e o tráfico de animais silvestres. No Brasil, expor essa rede de ilícitos tornou-se uma questão estratégica nacional, visto que a degradação amazônica compromete os “rios voadores” — responsáveis pelas chuvas que sustentam o agronegócio no Centro-Sul — e facilita a atuação de facções criminosas nas fronteiras da região Norte. A sucursal latino-americana construiu, ao longo da última década, uma rede regional de parcerias com dezenas de veículos de comunicação, permitindo que os achados jornalísticos alcancem audiências em todo o continente.
Como as investigações ambientais evoluíram na última década?
Os crimes ecológicos raramente ocorrem de forma isolada. Uma estrada aberta na floresta pode surgir inicialmente como uma linha tênue nas imagens de satélite e, meses depois, transformar-se em um corredor para a passagem de madeira, vida selvagem e entorpecentes. As fases iniciais dessas atividades costumam ocorrer longe das capitais e raramente atraem fiscalização imediata. As evidências costumam surgir de fontes fragmentadas, como cientistas compartilhando coordenadas, comunidades locais relatando a presença de aeronaves desconhecidas ou jornalistas que passam meses rastreando como um pequeno desmatamento se tornou uma rede estruturada.
Nos últimos anos, a prática jornalística passou por adaptações significativas. O que antes dependia quase exclusivamente de relatos de testemunhas oculares agora envolve uma mistura de sensoriamento remoto e apuração tradicional. As ferramentas de mapeamento e os bancos de dados abertos permitem que os repórteres monitorem as alterações no ambiente com uma precisão que era inalcançável há dez anos. Um desmatamento detectado em uma bacia hidrográfica remota pode ser comparado com imagens históricas, cruzado com concessões de terras e validado por meio de apuração no local.
Por que a colaboração internacional é vital para o jornalismo ecológico?
As infrações ambientais não respeitam as fronteiras nacionais, visto que rios fluem por múltiplas jurisdições e as cadeias de suprimentos se estendem por diversos continentes. Uma única investigação pode envolver comunicadores de vários países comparando anotações e verificando informações em conjunto. Redes de colaboração têm se formado gradualmente entre veículos especializados, repórteres regionais e redações sem fins lucrativos. A equipe editorial do portal em questão trabalha em projetos transfronteiriços que combinam análises espaciais com longos períodos de reportagem presencial, evidenciando os padrões que as autoridades têm dificuldade em documentar sozinhas.
O papel dos editores também ganhou novos contornos. Eles coordenam investigações que podem durar mais de um ano, conectam os repórteres com cientistas, advogados e analistas capazes de interpretar as provas coletadas. Além disso, tomam decisões sobre o momento certo de publicar o material ou a necessidade de verificações adicionais. Em regiões onde os profissionais da imprensa enfrentam ameaças legais e riscos físicos crescentes, essas escolhas carregam consequências práticas e diretas para a segurança das equipes.
Qual é a trajetória profissional de Alexa Vélez?
A jornada da editora não começou com a cobertura ambiental. Ela se formou como jornalista em um programa de televisão de investigação semanal no Peru, onde passou quase nove anos examinando casos de corrupção envolvendo governos nacionais e locais. A experiência foi fundamental para moldar seu foco no jornalismo investigativo. Durante esse período, atuou também em uma função incomum para mulheres na indústria da época.
Em entrevista, a jornalista detalhou o início de sua carreira, que se deu durante a queda do regime de Alberto Fujimori no Peru, no final da década de 1990 e início dos anos 2000. Ela relatou a dificuldade de abrir espaço em um ambiente profissional predominantemente masculino.
“Fui cinegrafista de campo por quase três anos. Não falo muito sobre isso. Na época, éramos as únicas duas mulheres no país inteiro trabalhando em um campo dominado por homens. […] Foi desafiador sair às ruas com câmeras pesadas e conquistar nosso espaço em uma área onde as mulheres eram vistas como bizarrices.”
Antes de chegar à redação atual, a profissional ainda dirigiu um programa de jornalismo esportivo por cinco anos e comandou uma atração televisiva voltada para histórias de conservação. Em suas viagens pelo território peruano, a equipe gravou mais de 80 episódios sobre áreas protegidas e vida selvagem, experiência que a preparou para a atual posição editorial.
Quais são as principais atividades da editora na redação?
Como responsável por grande parte do fluxo de trabalho na filial latino-americana, a rotina da profissional transita entre tarefas organizacionais e acompanhamento de grandes reportagens. Ela gerencia o orçamento, revisa as metas anuais e participa das reuniões semanais para definição de pautas. Atualmente, seu foco recai sobre o suporte a projetos específicos:
- Acompanhamento de reportagens investigativas sobre infrações ecológicas na região amazônica.