Os acionistas da petroleira britânica BP, que também possui operações de exploração offshore no Brasil, receberam uma forte orientação para votar contra a permanência do novo presidente do conselho de administração, Albert Manifold, durante a próxima assembleia geral anual da empresa. A recomendação parte de importantes consultorias corporativas em retaliação à decisão do executivo de excluir uma resolução climática crucial da pauta oficial do encontro, marcado para o dia 23 de abril de 2026.
De acordo com informações do Guardian Environment, a firma de assessoria de voto Glass Lewis orientou os grandes investidores a se oporem a Albert Manifold, que assumiu o cargo há apenas seis meses. A instituição baseou sua postura na recusa da BP em debater uma proposta que exigia o compartilhamento da estratégia de longo prazo da empresa em cenários de queda na demanda por petróleo e gás natural.
A resolução barrada havia sido apresentada pelo grupo ativista de acionistas Follow This. O objetivo central da medida era forçar a companhia e sua base de investidores a discutir abertamente as metas ambientais e os riscos da transição energética durante a assembleia geral.
Por que a diretoria da BP barrou a resolução climática?
Segundo um comunicado divulgado por Manifold no site institucional, o conselho concluiu que a proposta apresentada pelo Follow This não era válida. Ele argumentou que, mesmo se aprovada pelos acionistas, a medida seria ineficaz na prática corporativa diária e não traria benefícios operacionais reais.
Um porta-voz da petroleira afirmou que a empresa está concentrada em construir uma estrutura mais simples após amplo diálogo com os investidores. O representante declarou:
“É por isso que estamos fazendo essas recomendações, para fornecer divulgações transparentes e padronizadas que apoiem comparações claras entre as empresas.”
Qual é a nova estratégia da petroleira britânica?
Atualmente, a companhia passa por um processo de reorientação estratégica, voltando seu foco principal para a exploração de combustíveis fósseis. Esse movimento reflete um dilema global do setor, também vivenciado no Brasil pela Petrobras, que busca equilibrar a continuidade da exploração de petróleo com os investimentos necessários para a transição energética. A reorientação da BP ocorre após uma incursão considerada mal avaliada pelo mercado no setor de energias renováveis nos últimos anos.
O conselho tem passado por intensas reformulações para sustentar esta nova fase. Manifold, ex-chefe da empresa de materiais de construção CRH, ingressou no mês de outubro com a promessa de ajudar a corporação a atingir seu potencial máximo. Além disso, a empresa nomeou neste mês Meg O’Neill, ex-executiva da petrolífera norte-americana ExxonMobil, como diretora executiva. Ela é a quarta liderança a ocupar a chefia desde 2023 e a primeira mulher na função.
Quais são as críticas das consultorias corporativas?
O relatório da Glass Lewis aponta que o veto do conselho administrativo levanta sérias preocupações institucionais. A consultoria destacou que a atitude questiona a transparência da empresa, a eficácia da comunicação corporativa e a capacidade de resposta às demandas da base de acionistas.
O conflito não se restringe apenas à pauta do grupo ativista. O cenário de embate inclui outros fatores relevantes que serão votados pelos investidores:
- A consultoria ISS (Institutional Shareholder Services) também recomendou voto contrário ao pedido do conselho para retirar duas propostas antigas sobre relatórios de impacto climático.
- A administração argumenta que as medidas, criadas entre os anos de 2015 e 2019, perderam a relevância devido à adoção atual de uma estrutura de relatórios mais padronizada.
- A Glass Lewis endossou a posição da ISS, orientando a rejeição imediata do pedido de descarte dessas antigas resoluções de transparência.
O embate entre a alta cúpula administrativa e os investidores focados em governança corporativa ilustra a crescente pressão que corporações do setor de combustíveis fósseis enfrentam nos mercados globais. O precedente estabelecido por gigantes como a BP costuma influenciar diretamente as políticas de sustentabilidade exigidas por fundos estrangeiros que operam no mercado de capitais brasileiro. A decisão final sobre o nível de exigência climática aplicado à multinacional será definida pelas urnas corporativas no encontro anual.



