
O elevado nível de dívidas das famílias brasileiras está freando o potencial da economia do país. Um estudo divulgado em abril de 2026 revela que o superendividamento reduz em cerca de 40% o impacto positivo do aumento da renda sobre o consumo nacional.
De acordo com informações da Folha de S.Paulo, o levantamento foi conduzido pelo Banco Daycoval, analisando o cenário macroeconômico e o orçamento doméstico da população até o ano de 2025.
A pesquisa detalha a relação direta entre a massa salarial e o poder real de compra. Em cenários onde o nível de inadimplência ou comprometimento da renda é baixo, cada avanço de um ponto na soma de todos os salários do país gera um aumento de 0,29 ponto percentual no consumo diário. Contudo, no contexto atual de alto endividamento, essa mesma expansão salarial resulta em um crescimento de apenas 0,17 ponto percentual nas compras familiares, consolidando uma queda brusca de eficácia financeira.
Como o crédito imobiliário afeta as dívidas das famílias?
O histórico financeiro brasileiro demonstra uma mudança drástica de comportamento nas últimas duas décadas. No ano de 2005, o comprometimento médio da renda familiar estava na faixa de 17%. Já nas análises consolidadas para 2025, esse indicador saltou para quase 50% dos ganhos mensais. Uma parcela expressiva dessa evolução ao longo de 20 anos está diretamente atrelada à expansão dos financiamentos habitacionais de longo prazo.
O crédito habitacional teve um boom entre 2010 e 2015, e a partir de 2021 também houve uma alta forte.
A declaração oficial é de Antonio Ricciardi, economista da instituição financeira responsável pela elaboração da pesquisa. O modelo econométrico utilizado pelos especialistas aponta que o alerta vermelho acende quando as obrigações financeiras ultrapassam a marca de 39% da renda do trabalhador.
Quando o endividamento se eleva acima desse patamar, a massa de renda passa a ter menos efeito no consumo e o crédito para a pessoa física ganha importância.
Isso significa que, com o orçamento sufocado por prestações, as pessoas passam a recorrer a novos empréstimos na tentativa de manter o padrão de vida, criando um ciclo contínuo de tomada de recursos que enfraquece a economia real.
Qual o impacto financeiro perdido no consumo desde 2023?
O levantamento conseguiu quantificar exatamente o que o comércio e o setor de serviços deixaram de faturar por causa dos altos débitos da população. Desde 2023, o consumo das famílias registrou um crescimento acumulado de 7,8%. No entanto, se o país não estivesse enfrentando este quadro de superendividamento, o avanço teria sido três pontos percentuais maior, atingindo a marca de 10,8%.
Considerando exclusivamente as projeções para o ano de 2025, a expansão do mercado consumidor interno teria sido 3,6 pontos percentuais superior ao cenário real mensurado. O economista-chefe do Banco Daycoval, Rafael Cardoso, explica a motivação do estudo destacando três fatores cruciais da economia brasileira contemporânea:
- O mercado de trabalho apresenta números de crescimento e formalização.
- A massa salarial global está em constante elevação em todo o país.
- Apesar dos avanços citados, o varejo e o consumo não acompanham a alta de forma proporcional.
Apesar do mercado de trabalho e da renda crescentes, o consumo das famílias tem respondido cada vez menos. Isso nos levou a fazer esse levantamento.
A análise da equipe econômica evidencia, portanto, um grave distanciamento entre a geração nacional de emprego e a ida efetiva do brasileiro aos balcões de compras e supermercados.
Quais são as soluções para reduzir o superendividamento no Brasil?
A perspectiva para o futuro da economia nacional e do alívio do orçamento doméstico depende de esforços amplos e coordenados. A resolução do problema estrutural das famílias que já estão sufocadas por juros, prestações e faturas atrasadas exige muito mais do que a simples flutuação passiva das taxas macroeconômicas.
Com a queda dos juros, o serviço da dívida tende a ser mais baixo, mas isso não necessariamente indica que o endividamento cai para um patamar mais baixo. Teria que haver um movimento conjunto de medidas.
A avaliação dos pesquisadores aponta que é estritamente necessário unir o barateamento do crédito a programas efetivos de renegociação em massa e educação financeira, garantindo que o dinheiro proveniente do aumento de renda volte a ditar o ritmo saudável da economia do país.


