A Ucrânia intensificou uma série de ataques com drones contra refinarias e terminais de exportação de petróleo da Rússia, atingindo diretamente a principal fonte de financiamento da máquina de guerra do governo central de Moscou. As investidas, intensificadas entre março e o início de abril de 2026, concentram-se em portos estratégicos no Mar Báltico, causando danos significativos às estruturas de armazenamento e reduzindo a capacidade diária de escoamento do país. O impacto dessas ações já reverbera na cotação internacional do barril, agravando uma crise energética global impulsionada por outros conflitos geopolíticos. Para o consumidor brasileiro, a alta do petróleo no exterior é um fator de atenção, pois historicamente pressiona a política de preços da Petrobras, podendo refletir no valor dos combustíveis nas bombas.
De acordo com informações do G1, a estratégia militar visa sufocar a economia russa, que figura como a segunda maior exportadora de petróleo do mundo. Apenas no ano passado, o país arrecadou US$ 160 bilhões com a venda do produto. Pesquisadores apontam que a produção de petróleo e gás natural representa um quarto de toda a receita estatal russa.
Por que a Ucrânia mira a infraestrutura de petróleo da Rússia?
A tática adotada pelas forças ucranianas busca minar a capacidade de sustentação financeira do conflito por parte da Rússia. Em vez de confrontar o adversário exclusivamente no campo de batalha tradicional, a ofensiva eleva os custos econômicos e políticos da guerra. O cenário internacional, até então, favorecia Moscou devido à alta dos preços impulsionada por tensões no Oriente Médio.
O professor de Relações Internacionais Carlos Gustavo Poggio analisa a conjuntura atual:
“O aumento do preço do petróleo, isso favoreceu muito a Rússia, o que preocupou a Ucrânia, ou seja, a Rússia está faturando mais com o que aconteceu após a guerra com o Irã do que estava antes. Mesma coisa o próprio Irã.”
O especialista acrescenta que a estratégia ucraniana busca inviabilizar o avanço adversário pelo estrangulamento financeiro.
Quais são os principais alvos e os impactos na exportação russa?
As agências internacionais, incluindo três fontes do setor energético ouvidas pela agência Reuters, estimam que a Rússia já perdeu um quinto de sua capacidade total de exportação devido aos danos nas refinarias e na infraestrutura de escoamento. Atualmente, o país enfrenta uma queda na capacidade na ordem de um milhão de barris por dia.
Os ataques têm se concentrado em pontos críticos que dão acesso ao norte europeu e a rotas comerciais globais. Os principais alvos atingidos pelas investidas incluem:
- Porto de Primorsk: Imagens de satélite revelaram danos em pelo menos oito tanques após os ataques, comprometendo cerca de 40% da capacidade de armazenamento do local.
- Porto de Ust-Luga: A infraestrutura vizinha sofreu investidas durante pelo menos cinco dias consecutivos no mês de março de 2026, resultando na suspensão temporária do escoamento na região do Mar Báltico.
Diante da escalada, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, classificou as ações ucranianas como terroristas e afirmou que o governo tem feito um trabalho intenso para proteger Ust-Luga e outras instalações críticas de infraestrutura energética.
Como as restrições globais e embargos afetam o mercado de energia?
A ofensiva com drones soma-se a uma série de embargos econômicos impostos por nações ocidentais que tentam forçar o fim do conflito na Europa Oriental. A União Europeia, que adquiria cerca de um quarto de seu petróleo da Rússia antes da guerra, reduziu drasticamente o volume de importações e decidiu encerrar totalmente a dependência do produto russo até o ano de 2027.
Esse cenário aumenta a pressão sobre a oferta global de energia, que já sofre impactos de tensões envolvendo o Irã e o fechamento estratégico do Estreito de Ormuz. O ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), David Zylbersztajn, avalia a gravidade do cenário e o risco imposto ao suprimento mundial:
“A Rússia, assim como a Arábia Saudita, são os dois maiores exportadores. Então, você tem já a Arábia Saudita limitada por conta da guerra do Irã. E se você tiver agora a Rússia também limitada por conta da guerra na Ucrânia, você tem aí, eu diria, a pior situação possível em mercado extremamente restrito, cada vez mais restrito, se isso se configurar e se mantiver ao longo do tempo.”
Qualquer alteração na dinâmica russa tem reflexos imediatos no cotidiano de consumidores e governos globais. Como conclui o professor Carlos Gustavo Poggio sobre a sensibilidade econômica do setor:
“Você está mexendo com a demanda, com a oferta global de petróleo e, portanto, com o preço global do petróleo, que é essa commodity que é muito sensível a mudanças na oferta. Então isso acaba afetando a todos.”


