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Paraísos fiscais guardam US$ 3,55 trilhões da elite global, revela Oxfam

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Montanhas de moedas de ouro e pilhas de dinheiro em um cofre luxuoso, simbolizando a acumulação de riqueza.
Reprodução / agenciabrasil.ebc.com.br

A organização internacional Oxfam divulgou um levantamento contundente revelando que a elite financeira global mantém cerca de US$ 3,55 trilhões em riquezas não tributadas escondidas em jurisdições conhecidas como paraísos fiscais no ano de 2026. A análise, apresentada no contexto do décimo aniversário do escândalo global dos Panama Papers, demonstra que a parcela correspondente ao 0,1% mais rico da população mundial oculta um volume de capital que supera o patrimônio somado dos 4,1 bilhões de indivíduos que compõem a metade mais pobre da humanidade.

De acordo com informações da Agência Brasil, o montante bilionário alocado no exterior por meio de empresas do tipo offshore continua a corroer as bases de arrecadação de diversos países, prejudicando diretamente o financiamento de serviços públicos essenciais em todo o planeta.

Como os Panama Papers influenciam o atual cenário financeiro?

Há exatos dez anos, em 31 de março, o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) expôs ao mundo os intrincados mecanismos de evasão fiscal por meio do vazamento massivo de registros corporativos. Naquela ocasião, mais de 370 profissionais de imprensa oriundos de 76 nações diferentes examinaram milhões de arquivos que detalhavam as operações obscuras da indústria internacional.

Essas estruturas corporativas, sediadas em locais com tributação nula ou irrisória, são frequentemente utilizadas para mascarar a origem de fundos e ocultar os verdadeiros proprietários dos ativos milionários. Apesar da repercussão internacional e das promessas de maior transparência, os super-ricos perpetuaram a utilização dessas engrenagens de elisão fiscal ao longo da última década.

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Do montante total de riqueza mantida no exterior e livre da cobrança de impostos, estima-se que a camada que representa o 0,1% mais abastado do globo detenha aproximadamente 80% dos valores. Isso equivale a uma cifra de US$ 2,84 trilhões que circula longe dos radares das autoridades tributárias de seus países de origem.

Quais são os impactos dessa evasão para a economia global?

O volume de recursos escondido nessas jurisdições atinge proporções comparáveis a grandes economias nacionais. Segundo os dados apurados, os US$ 3,55 trilhões representam um valor superior a todo o Produto Interno Bruto (PIB) da França e chegam a ser mais que o dobro da produção somada dos 44 países classificados como os menos desenvolvidos do mundo. Atualmente, a riqueza offshore não tributada se mantém persistentemente elevada e equivale a cerca de 3,2% do PIB global.

O coordenador de Tributação da filial internacional da entidade civil, Christian Hallum, ressalta a assimetria de poder que o fenômeno expõe à sociedade contemporânea.

“Os Panama Papers levantaram o véu sobre um mundo sombrio onde os mais ricos movimentam silenciosamente fortunas imensas para além do alcance dos impostos e da fiscalização. Dez anos depois, os super-ricos continuam escondendo verdadeiros oceanos de riqueza em cofres offshore”, afirmou o especialista. Hallum adverte ainda que essa dinâmica concede a milionários e bilionários uma posição acima das obrigações impostas ao restante dos cidadãos comuns.

O que precisa mudar para combater a evasão de divisas?

As consequências sistêmicas desse cenário recaem diretamente sobre a qualidade de vida da população em geral. A instituição enfatiza que a ausência desses trilhões nas receitas estatais resulta na precarização aguda de infraestruturas governamentais básicas.

“As consequências são tão previsíveis quanto devastadoras: vemos nossos hospitais públicos e escolas privados de recursos, nosso tecido social dilacerado pela crescente desigualdade e as pessoas comuns forçadas a arcar com os custos de um sistema projetado para enriquecer um pequeno grupo”, ressaltou o documento da organização.

Embora existam instrumentos de controle avançando em algumas regiões, o progresso segue profundamente desigual. O sistema de Troca Automática de Informações (AEOI), apontado por pesquisadores como fundamental para reduzir a parcela de dinheiro não tributado, não abrange a maioria dos países localizados no Sul Global. Essa exclusão ocorre paradoxalmente nas regiões onde a necessidade de ampliação da arrecadação interna é mais severa. Para frear as manobras, defende-se a adoção imediata das seguintes medidas:

  • Ação internacional coordenada para a regulamentação do setor financeiro.
  • Inclusão definitiva das nações do Sul Global nas redes de compartilhamento de dados fiscais (AEOI).
  • Imposição de tributações efetivas voltadas especificamente para a riqueza extrema.
  • Fim da arquitetura global que possibilita o encobrimento do patrimônio trilionário.

No contexto sul-americano, o panorama reflete as mesmas assimetrias verificadas nas estatísticas internacionais. No Brasil, o combate à evasão offshore ganhou força recentemente com a aplicação da Lei 14.754/2023, que passou a tributar de forma periódica fundos exclusivos e investimentos no exterior. A diretora executiva da representação brasileira da entidade, Viviana Santiago, reforçou que as denúncias feitas há uma década permanecem válidas na realidade fiscal e econômica do país.

“O que os Panama Papers revelaram há dez anos continua atual no Brasil: há uma arquitetura global que protege grandes fortunas enquanto a maioria da população paga proporcionalmente mais impostos. Justiça fiscal passa necessariamente por tributar os super-ricos”, argumentou a dirigente no encerramento da avaliação oficial.

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