A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã completou um mês no fim de semana de 28 e 29 de março de 2026 e segue ampliando riscos ambientais e climáticos no Oriente Médio, segundo um relatório do Observatório de Conflitos e Meio Ambiente (Ceobs). O levantamento aponta ameaças à saúde pública, aos ecossistemas terrestres e marinhos, aos recursos naturais e aos aquíferos, além de efeitos que podem ultrapassar a região. De acordo com informações da Agência Brasil, os especialistas alertam que a continuidade do conflito aumenta a possibilidade de danos locais e globais.
Nas três primeiras semanas de guerra, foram identificados mais de 300 incidentes com algum grau de dano ambiental nos países envolvidos. O levantamento considera ocorrências no Irã, Iraque, Israel, Kuwait, Jordânia, Chipre, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Omã e Azerbaijão. Segundo os pesquisadores, ataques a instalações industriais, residenciais e comerciais podem liberar poluentes, espalhar materiais de construção como amianto e provocar incêndios com produtos tóxicos de combustão. Componentes de armas explosivas também podem dispersar metais pesados no ambiente.
Quais são os principais riscos ambientais apontados no relatório?
O documento do Ceobs lista uma série de frentes de risco associadas ao conflito. Entre elas, estão ameaças nucleares, danos à infraestrutura de combustíveis fósseis, risco de derramamentos no Golfo Pérsico, poluição no Mar Vermelho e consequências globais para energia e fertilizantes. Para o Brasil, esse tipo de pressão internacional pode afetar custos de insumos do agronegócio, já que fertilizantes e energia têm peso relevante na produção e no transporte.
- Riscos nucleares após ataques a instalações no Irã e áreas próximas a estruturas israelenses ligadas ao setor nuclear;
- Danos a locais de produção, processamento e armazenamento de petróleo e gás, com incêndios e vazamentos;
- Possibilidade de derramamentos no Golfo Pérsico e poluição associada a portos, infraestrutura costeira e embarcações afundadas;
- Incidentes no Mar Vermelho com ameaça ao ecossistema marinho e à pesca;
- Efeitos globais sobre preços do gás, uso de carvão e custos de ureia e fertilizantes.
O relatório afirma que dezenas de instalações de combustíveis fósseis foram danificadas ou interrompidas na região. Isso elevou o risco de incêndios e derramamentos, além de gerar emissões adicionais de gases de efeito estufa por vazamentos de metano e queima de emergência. No Golfo Pérsico, embora a maioria dos navios atacados pelo Irã fosse de carga a granel, e não petroleiros, permanece o risco constante de poluição por derramamento, com capacidade limitada de resposta. Como grande produtor agropecuário, o Brasil costuma acompanhar oscilações no mercado internacional de fertilizantes, especialmente de insumos como a ureia, que podem repercutir nos custos do campo.
O que dizem organismos internacionais sobre o avanço da violência?
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente manifestou preocupação com a escalada da violência no Oriente Médio. Em declaração oficial, o órgão citou danos ambientais generalizados e pediu o fim das hostilidades.
“O impacto ambiental deste conflito é imediato e severo. Os ataques aos depósitos de petróleo estão espalhando poluição tóxica, enquanto a escassez de água no Irã e no Oriente Médio se agrava. Um cessar-fogo é urgentemente necessário para proteger a saúde humana e ambiental”, afirma Inger Andersen, diretora executiva do Pnuma.
Irã e Líbano também enviaram reclamações às Nações Unidas acusando Israel de cometer ecocídio, termo usado para definir destruição maciça e duradoura do meio ambiente causada por atos ilegais ou irresponsáveis. Em documento publicado pelo Irã, o governo sustenta que ataques a reservatórios de combustível em Teerã se enquadrariam nessa definição e defende responsabilização internacional.
Qual é o custo climático estimado para a guerra?
Dados do Climate and Community Institute estimam que a guerra no Irã provocou, em 14 dias, a emissão de 5 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Se o conflito se prolongar e o ritmo inicial for mantido, as emissões mensais podem ultrapassar 10 milhões de toneladas. O professor Wagner Ribeiro, da Universidade de São Paulo, avaliou que o conflito gera preocupação adicional porque os países envolvidos têm forte ligação com a produção de combustíveis fósseis e, por isso, se tornam alvos estratégicos.
“O conflito no Irã gera muita preocupação, porque os países envolvidos são fortemente envolvidos na produção de combustíveis fósseis e se tornam alvos estratégicos”, analisa o professor Wagner Ribeiro, professor de geografia da Universidade de São Paulo (USP), especialista em geopolítica e meio ambiente.
“Quando você bombardeia uma usina de processamento de petróleo ou um posto de gás, não está apenas dificultando a infraestrutura do inimigo, mas está também queimando esse material e agravando a emissão de gases de efeito estufa”, complementa.
O Instituto Talanoa também publicou levantamento sobre o impacto das guerras contemporâneas na emergência climática. Segundo o estudo citado pela reportagem, se o setor militar mundial fosse um país, seria o quinto maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, com cerca de 2,7 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente, ou 5,5% das emissões globais. O instituto observa ainda que conflitos armados mantêm emissões estruturais e podem gerar picos intensos em períodos curtos.
Wagner Ribeiro afirmou que as emissões ocorrem em toda a cadeia militar, incluindo logística, transporte de tropas, armamentos, veículos, lançamento de mísseis e produção de artefatos bélicos. Para o pesquisador, a resposta deveria priorizar saídas diplomáticas.
