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Soja livre de desmatamento varia conforme critérios de cada trader, revela estudo

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Plantação de soja verde sob céu azul, simbolizando produção agrícola e sustentabilidade ambiental.
Foto: NASA Goddard Photo and Video / nasa (by)

A soja “livre de desmatamento” é definida de formas distintas pelas principais tradings que atuam no Brasil, conforme critérios próprios de cada corporação, segundo estudo publicado por pesquisadoras da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O trabalho foi divulgado em 30 de março de 2026 pela Agência Bori.

O estudo analisou as políticas ambientais de seis grandes traders de soja que operam no país e constatou a ausência de consenso mínimo sobre o que pode ser considerado soja “responsável” ou “livre de desmatamento”. A mesma carga de soja pode ser aceita por uma empresa e rejeitada por outra, dependendo dos parâmetros adotados. O tema tem peso para o Brasil porque o país está entre os maiores produtores e exportadores mundiais de soja, e exigências socioambientais influenciam o acesso a mercados externos.

O que as traders consideram desmatamento?

As pesquisadoras examinaram protocolos públicos, políticas de fornecimento e relatórios de ESG (Environmental, Social and Governance; em português, Ambiental, Social e Governança) das principais empresas do setor. O foco foi entender o que cada corporação classifica como desmatamento, quais tipos são aceitáveis e quais áreas são priorizadas para conservação.

De acordo com o artigo, o conceito de soja “livre de desmatamento” simplifica impactos ambientais mais complexos da cadeia produtiva. Tecnologias de monitoramento por satélite são utilizadas para conferir aparência de objetividade às práticas, mas podem ocultar problemas como o uso intensivo de agrotóxicos e violações de direitos humanos e territoriais.

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Como a tecnologia influencia a definição de sustentabilidade?

As autoras utilizam o conceito de “tecnopoder” para explicar como a ciência e a tecnologia são empregadas para legitimar as posições das empresas. Imagens de satélite e sistemas de classificação de risco geram dados que, embora pareçam neutros, dependem de critérios específicos definidos pelas próprias corporações.

“Argumentamos que as métricas, critérios e formas de monitoramento de problemas ambientais não são definições e tecnologias neutras. Elas não apenas medem a conformidade ambiental, mas ajudam a defini-la de forma conveniente para o setor”.

A citação é da pesquisadora Ângela Camana, autora principal do estudo publicado na revista Sociologias.

Segundo Camana, algumas traders proíbem apenas a compra de soja de áreas com desmatamento ilegal, enquanto outras incluem também o desmatamento legal. Há ainda diferenças nos recortes temporais considerados para definir quando o desmatamento se torna inaceitável na cadeia de suprimentos.

Quais impactos ambientais são invisibilizados?

O estudo aponta que o foco exclusivo no desmatamento acaba por desconsiderar outros efeitos da produção de soja. O uso de agrotóxicos, por exemplo, não é contemplado pela maioria dos sistemas de compliance ambiental analisados. Da mesma forma, questões relacionadas a direitos territoriais de comunidades tradicionais e povos indígenas recebem pouca atenção nos critérios adotados.

O trabalho também destaca o papel crescente de consultorias e assessorias especializadas na definição das normas e metodologias de monitoramento. Essas empresas auxiliam as traders a responder às críticas internacionais sobre sustentabilidade.

As autoras recomendam a continuidade de pesquisas sobre como o agronegócio brasileiro responde à crescente demanda por conformidade ambiental nos mercados externos. Segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa, quase metade das emissões brasileiras está relacionada a mudanças de uso da terra, incluindo desmatamento e conversão de vegetação nativa para agricultura e pecuária.

O artigo completo foi publicado na revista Sociologias com o DOI https://doi.org/10.1590/1807-0337/e149057.

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