A disputa pelas reservas nos restaurantes mais exclusivos dos Estados Unidos se acirrou no início de 2026, e o DoorDash — aplicativo norte-americano de entregas com atuação semelhante à do iFood no Brasil — emergiu como um dos principais players nesse mercado. Após a ascensão e queda da prática de revenda paralela de reservas, a plataforma compete com outros aplicativos para garantir assentos nos estabelecimentos mais cobiçados do país, sinalizando uma tendência global de diversificação no setor de tecnologia e alimentação.
De acordo com uma reportagem da revista Wired, o DoorDash está utilizando uma estratégia agressiva para dominar esse nicho, oferecendo vantagens financeiras e de acesso exclusivo aos seus usuários frequentes.
No restaurante The Eighty-Six, em Manhattan (Nova York), a exclusividade é o ponto central. O local luxuoso oferece caviar e queijo mimolette envelhecido, além de atrair celebridades. Como as reservas são um artigo raro e a lei de Nova York proíbe a comercialização de mesas por terceiros, o estabelecimento surpreendeu o mercado ao passar a bloquear mesas específicas apenas para clientes do DoorDash.
Após adquirir a plataforma de tecnologia de hospitalidade SevenRooms em 2025, o aplicativo de entregas entrou de vez na competição direta pelo controle de assentos na alta gastronomia norte-americana.
Qual a estratégia do DoorDash para atrair clientes?
O CEO do DoorDash, Tony Xu, afirmou no mês passado (fevereiro de 2026) que o objetivo da empresa é oferecer valor aos clientes, ajudando-os a descobrir desde novos locais para refeições casuais até garantir mesas exclusivas. Em Nova York, restaurantes como o Or’esh e o The Corner Store já aceitam reservas apenas através do aplicativo e do site do DoorDash. A empresa também possui acordos semelhantes em Miami, contemplando casas como o Cotoa e o Sparrow Italia.
Atualmente, o serviço de reservas do DoorDash está disponível em 13 das maiores cidades dos EUA, incluindo Los Angeles, Las Vegas e Chicago, com planos de expansão nacional.
Por que a disputa pelas reservas se intensificou?
A pandemia de Covid-19 impulsionou a cultura de planejamento antecipado, mas o fenômeno também reflete a atual dinâmica econômica, na qual restaurantes de alto padrão prosperam enquanto estabelecimentos de nível médio enfrentam dificuldades. A corrida por mesas se transformou em uma atividade altamente competitiva, o que chegou a gerar um mercado não oficial de “cambistas” cobrando altas taxas.
Com diversas cidades americanas proibindo essa revenda paralela, abriu-se espaço para uma nova batalha corporativa. O DoorDash atua de forma disruptiva ao usar o acesso a mesas cobiçadas como isca para prender os clientes em seu ecossistema de fidelidade — um movimento estratégico que reflete a mesma tendência observada no Brasil com a integração de serviços de reservas, como o GetIn, às plataformas nacionais de delivery.
Incentivos em dinheiro e coleta de dados
Aproveitando sua posição como o maior aplicativo de entrega de comida do país, o DoorDash tem garantido acordos em velocidade recorde. Só em Manhattan, mais de 200 restaurantes firmaram parcerias para oferecer mesas, horários ou prioridade aos usuários. O plano do CEO Tony Xu é transformar a plataforma em um ecossistema completo para restaurantes, retendo o cliente em todas as etapas de consumo.
Mesmo locais sem exclusividade total, como o Tokyo Record Bar e o Chinese Tuxedo, liberam mesas restritas aos assinantes do programa DashPass (serviço premium similar ao Clube iFood). Para impulsionar a adoção, o DoorDash está pagando seus assinantes para saírem de casa: ao reservar o renomado restaurante Sushi Noz pelo app, o cliente ganha US$ 12 (cerca de R$ 60) em créditos para refeições futuras.
A estratégia tem funcionado. Usuários relatam o recebimento de bônus, como US$ 10 (cerca de R$ 50) de crédito após jantarem no restaurante Emmett’s on the Grove, além de receberem ofertas contínuas. Contudo, o verdadeiro ativo por trás dessas recompensas é a coleta de dados. Esses aplicativos mapeiam detalhadamente os hábitos dos consumidores, cruzando informações valiosas sobre o que comem, quem dá mais gorjetas e o histórico de não comparecimento (no-shows) às reservas.



